Aos 40 anos na profissão
de repórter, José Maria Mayrink, 63 anos, ganhador
do Prêmio Esso de Jornalismo - o maior em sua categoria
-, lança um livro, "Vida de Repórter" (Geração Editorial,
256 páginas, R$ 25,00) que vai além de suas fascinantes
memórias: trata-se de um perfeito manual da alma
do jornalismo, para quem quer ser jornalista ou
já engatinha na profissão.
O livro foi escolhido pelo editor Luiz Fernando
Emediato para abrir a coleção que leva o mesmo título,
"Vida de Repórter", que terá como característica
relatos de repórteres, sempre na primeira pessoa,
sobre os bastidores de seu trabalho: making off
de grandes reportagens, aquelas que se transformam
em lições de vida, tal a sua força, sua importância
ou sua carga emocional para quem as viveu ou as
leu, quando publicadas, de outra forma, nos jornais
e nas revistas.
Para o estudante - ou até para o jornalista atuante
- um manual de redação ajuda. Nele se podem encontrar
desde os métodos que determinado veículo de comunicação
utilizam como padrão até as grafias daquela palavra
que se vai usar e, de repente, dá branco.
Mas não podem ser encontradas em nenhum manual de
de redação a compreensão da dimensão da profissão
de jornalista, com suas alegrias e angústias, ideais
e frustrações e grandes descobertas, mas também
grandes sonhos desfeitos. A não ser que seja um
manual que deixe de lado a técnica e use o coração.
Que não se preocupe tanto em definir o que é lead,
mas sim que mostre que por trás destas breves linhas
introdutórias de um reportagem pode estar a revelação
fundamental, a verdade que veio à tona, a observação
aguda da realidade. Ou, quem sabe até, a esperança
de um povo.
Assim é "Vida de Repórter". Mayrink é um dos mais
renomados e dignos profissionais de imprensa de
nosso país. Este livro comemora 40 anos de reportagem,
passados, entre outros, nas redações de O Globo,
do Jornal do Brasil, Veja, Jornal da Tarde e, atualmente,
na reportagem especial de O Estado de S. Paulo.
Neste período ganhou prêmios como o Prêmio Imprensa
do Governo do Estado, o Prêmio Rondon de Reportagem
e a premiação máxima do jornalismo brasileiro, o
Prêmio Esso de Jornalismo, escrevendo sobre problemas
urbanos em São Paulo. Circulou o mundo atrás de
boas reportagens: Panamá, Costa Rica, Nicarágua,
Guatemala, Haiti, República Dominicana e Estados
Unidos foram alguns pontos de passagem, assim como
Inglaterra, França, Japão e o Chile de Salvador
Allende deposto pelo golpe militar de 73. Tornou-se
escritor, autor de livros que fizeram época, como
Solidão, Filhos do Divórcio e Anjos de Barro, reimpressos
várias vezes nos anos 80.
Mayrink relata tudo com a síntese de um bom texto
jornalístico, mas com o tempero do cronista. Desde
o dia em que, recém saído do seminário, decidiu
trocar a batina pela máquina de escrever, e foi
procurar emprego no Correio de Minas.
O estagiário nunca haveria de abandonar o espírito
cristão, mas a partir de seu primeiro dia de redação
um outro espírito de apossou dele: o espírito de
repórter. Não o que fica na redação, resolvendo
tudo por telefone, fax ou internet. Não, Mayrink
é dos bons tempos, dos que sabem que as grandes
histórias do cotidiano estão nas ruas, onde o grande
drama do ser humano acontece.
Desde o primeiro dia no Correio de Minas, e até
hoje, aos 63 anos, o repórter Mayrink cumpre seu
papel diário de sair às ruas e observar, interpretar
e traduzir para os leitores o fruto do seu trabalho
- seja ao compor cenários sobre fortes turbulências
sociais, seja ao mostrar a realidade do homem comum.
Assunto é o que não faltam. Mayrink talvez seja
o profissional de imprensa que mais levou a sério
a máxima do colega Ricardo Kotscho, outro repórter
que sempre resistiu a ocupar postos de direção nos
grandes jornais e revistas: "Lugar de repórter é
na rua".
Seus personagens foram na maioria das vezes, nesses
40 anos, "as pessoas mais sofridas desse mundo",
segundo o próprio autor. Assim, levou às páginas
de jornais personagens ausentes nos dias de hoje:
meninos de rua, prostitutas, mendigos, sem-tetos,
doentes, favelados, presidiários. Ausentes nas páginas
de jornais, que fique claro, pois fazem parte da
nossa realidade, e está aí qualquer farol fechado
para mostrar isso. Mayrink, na contramão do aburguesamento
que toma conta de parte da imprensa nos últimos
anos, não faz destes personagens tabus. Ao contrário,
apresenta-os tal como eles são - provocando na sociedade
mais ou menos um efeito como o da psicanálise, quando
traz à luz conteúdos inconscientes que insistimos
em não querer ver. Pode-se dizer que José Maria
Mayrink está para o jornalismo brasileiro assim
como Plínio Marcos está para o teatro.
Por tudo isso, está mais do que explicado porque
"Vida de Repórter" foi escolhido para inaugurar
uma coleção com o mesmo título que a Geração traz
agora ao público. "O livro do Mayrink me abriu a
veia emocional dos longos anos em que eu também
fui repórter, cobrindo a vida urbana em São Paulo,
as vítimas da poluição em Cubatão ou guerras sangrentas
como a da El Salvador", declara o editor da Geração,
Luiz Fernando Emediato - que, assim como Mayrink,
também ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1982.
"Logo nas primeiras páginas percebi também que não
se trata de um livro só para a categoria, um livro
de jornalista para jornalistas. Ao contrário, sua
grandeza e sua força em despertar sentimentos falam
não só ao jornalista, mas ao ser humano".
"Vida de Repórter" é um livro escrito por quem,
muitas vezes, preencheu cadastros citando o filme
de Antonioni, Profissão: Repórter. E que se orgulha
disso. Porque sabe que, através dessa profissão,
se vive o desenrolar da grande aventura humana.
Entrevista
com o Autor José Maria Mayrink