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As malas da perdição no governo Lula

Dois jornalistas investigativos revelam os bastidores da atual crise
política em livro que resume toda a história e antecipa conclusões


O ano de 2005 foi o ano em que, para surpresa de muitos brasileiros, descobriu-se que dinheiro sem origem começou a correr e a voar pelo país, em malas de tesoureiros partidários despachadas de carros, em malas de deputados-bispos evangélicos em aviões de suas “igrejas” e até enfiado na cueca de um assessor petista. Políticos, empresários e marqueteiros sempre souberam que dinheiro do caixa 2 das empresas, do contrabando, do jogo, das falsas igrejas e da corrupção política alimenta as campanhas eleitorais – mas foi a primeira vez que se pôde realmente ver o dinheiro, ao vivo, nas malas apreendidas pela Polícia Federal, e, espanto dos espantos, comprovar-se que o Partido dos Trabalhadores era um dos donos do ervanário.

A crise provocada pelos indícios de corrupção no governo de Luís Ignácio Lula da Silva, do uso de caixa 2 em campanhas eleitorais do PT, do uso de dinheiro para comprar apoio de deputados e das suspeitas de desvio de recursos públicos, de estatais, para estas finalidades é o tema de mais um “instant book” da Geração Editorial (Memorial do Escândalo – Os bastidores da crise e da corrupção no governo Lula, de Gerson Camarotti e Bernardo de la Peña, 272 páginas, R$ 32,00). O livro está saindo na coleção História Agora, que já lançou A usina da injustiça – como um só homem está destruindo uma cidade inteira, coordenado por Ricardo Tiezzi, sobre a verdadeira guerra entre a direção da Cia. Siderúrgica Nacional e a cidade de Volta Redonda; O dinheiro sujo da corrupção – como a Suíça entregou Maluf, de Rui Martins, sobre a lavagem de dinheiro e as contas de Paulo Maluf no exterior; e CPI da Pirataria – os segredos do contrabando e da falsificação no Brasil, do deputado Luiz Antonio de Medeiros, sobre a pirataria de produtos e o crime organizado.

INSTANT BOOKS

Memorial do Escândalo é o primeiro “instant book” sobre a atual crise política, que motivou três Comissões Parlamentares de Inquérito e investigações por parte da Polícia Federal e Ministério Público. O livro, ansiosamente aguardado desde que foi anunciado, trará muitas novidades sobre os bastidores da luta entre os partidos e o governo, as idas e vindas nas investigações e os perfis dos principais envolvidos, do publicitário Marcos Valério e do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares ao deputado José Dirceu, o banqueiro Daniel Dantas e o próprio presidente Lula. Gerson Camarotti e Bernardo de la Peña são dois jornalistas de O Globo que divulgaram notícias inéditas sobre o caso e, durante os meses de agosto, setembro e outubro, reuniram todas as informações disponíveis (algumas delas exclusivas) sobre a crise, que tinha sido deflagrada em maio, com a primeira denúncia, na revista Veja, de corrupção nos Correios e o envolvimento do deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, no esquema.

A crise cresceu, envolvendo o publicitário Marcos Valério, de Minas Gerais, o então tesoureiro do PT, Delubio Soares de Castro, e dezenas de deputados de vários partidos, mas principalmente do PT, que haviam recebido dinheiro de caixa 2 para suas campanhas.

Os brasileiros que pela primeira vez haviam elegido um presidente-operário, Luiz Inácio Lula da Silva, puderam descobrir então, entre a decepção e o espanto, que o PT agira como qualquer outro partido: usara dinheiro de caixa 2 para financiar campanhas e, o que ainda se investiga, comprar votos de deputados – coisa de que os governos de Sarney e FHC tinham sido acusados também.

Memorial do Escândalo trata dos bastidores desta que é sem dúvida uma das maiores crises da incipiente democracia brasileira: a história de como o partido do governo revelou ser igual aos outros. A tragédia política do único partido que se dizia puro, limpo, transparente, coloca à mostra os intestinos e a cloaca do Congresso Nacional, do sistema partidário e do próprio governo. Ninguém parece imune à tentação da corrupção política e governamental.

Personagens ilustres de nossa história recente, sobre os quais não pairavam dúvidas éticas, como o combatente da ditadura militar e deputado José Dirceu, foram acusados de serem os mentores de um sistema de compra de votos para garantir maioria do governo no Congresso. Líderes políticos respeitados, como o deputado Roberto Brant, do PFL, e o senador Eduardo Azeredo, do PSDB, apareceram como beneficiários do mesmo dinheiro “não contabilizado” nas campanhas eleitorais.

O editor da Geração Editorial, Luiz Fernando Emediato, que assina a apresentação do livro, afirma:

– Nenhum político, nenhum candidato, nenhum governante pode, com segurança, afirmar que não foi beneficiado por este sistema sombrio, sob pena de passar por mentiroso ou ingênuo. Eu me lembro de que, no início do governo Collor, num seminário patrocinado pela Hidrobrasileira, empresa do futuro ministro Sérgio Motta, em San Francisco, na Califórnia, o então senador Fernando Henrique Cardoso comentou comigo, constrangido, que o sistema eleitoral precisava mudar, para tornar mais transparentes as doações eleitorais. Naquela época, empresários insatisfeitos já resmungavam que o tesoureiro da campanha de Collor, um certo PC Farias, estava exagerando em seus pleitos, cobrando deles mais do que poderiam pagar para garantir seus negócios.

Este é o foco principal dessa trágica questão: empresas, traficantes, “igrejas”, donos de bingo financiam campanhas eleitorais, por dentro e por fora, para garantir seus privilégios ou obter benefícios futuros.

– A crise atual – continua Emediato – foi provocada por uma denúncia até singela: uma pequena empresa subornava um funcionário menor dos Correios para fazer negócios. A denúncia evoluiu para uma crise política que revelou a prática, já comprovada, de uso de caixa 2 nas campanhas do PT e de praticamente todos os demais partidos, da situação e da oposição, inclusive PFL e PSDB.

Emediato considera que o principal, porém, ainda não se comprovou, embora os indícios sejam claros: a origem do dinheiro.

­– Parte veio de empresas privadas e parte, como sempre aconteceu e jamais se comprovou inteiramente, dos cofres públicos, saqueados por dirigentes indicados pelos políticos para os chamados cargos de confiança. As investigações continuam, e, aqui do nosso lado, torcemos para que, numa próxima edição, possamos ter um capítulo definitivo com o necessário fecho: se alguém recebeu dinheiro ilegalmente para campanhas eleitorais e benefício próprio, alguém contribuiu, em troca de alguma coisa. Quem contribuiu? O que desejava em troca? Se recebeu, quem pagou e de qual cofre público saiu? Esta é, na verdade, a questão que mais importa.

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