O que têm em comum jogadores de um time de futebol, velhinhos aposentados e o subsolo contaminado? Fora habitarem a mesma cidade, Volta Redonda, o fato de nutrirem, como a maioria da população e até o arcebispo Dom Waldyr Calheiros, aversão ao empresário Benjamin Steinbruch, controlador da Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN.
É ele o homem retratado em “A Usina da injustiça – como um só homem está destruindo uma cidade inteira” (Geração Editorial, Reportagem-denúncia, coordenação do jornalista Ricardo Tiezzi, 128 pgs., R$ 19,90) – como o responsável pela destruição dos valores e do meio ambiente de toda a cidade. Empresário reconhecido como empreendedor, ele acumula contra si acusações que fazem crer que responsabilidade social é apenas uma questão abstrata em seu método de gerenciar.
O livro é prefaciado por nada menos que o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, que apoiou a privatização das usinas siderúrgicas, no início dos anos 90, e está decepcionado com as ações de Benjamin Steinbruch.
A questão de quase uma cidade inteira estar contra o controlador da Companhia Siderúrgica Nacional – CSN foi levantada pelo jornal The New York Times, daí a idéia do editor e jornalista Luiz Fernando Emediato mandar investigar a fundo a história.
Em “A Usina da Injustiça” há depoimentos, com nomes e fotos, de desafetos de Steinbruch. Depois de um amplo cadastramento das áreas pertencentes à siderúrgica na cidade, ele fechou o Parque da Cicuta, que a cidade usava para lazer, desalojou de seu campo o time de futebol do América, destruiu com trator uma horta de velhinhos que não quiseram sair de suas terras e vem perseguindo muito mais gente.
Apesar do lucro astronômico da CSN em 2004 – R$ 1,9 bilhão – Steinbruch mandou remover a viúva dona Manoela Maria de Araújo, 73 anos, que contraiu câncer, da casa onde mora com dois filhos, um deles desempregado. O terreno, de 250 m2, é da usina.
Há 50 anos assolado por resíduos tóxicos, o subsolo da cidade está condenado e há relatos de pessoas acometidas de leucopenia, uma doença grave que vem matando crianças. Curiosamente, o controlador da CSN tem a seu favor 11 dos 14 vereadores de Volta Redonda.
A CSN é o retrato inverso do quatro de privatização da Usiminas, em Ipatinga. O exemplo bem-sucedido de gestão e integração com a cidade que nasceu em volta do aço se contrapõe até em comparações banais: enquanto o CEO da Usiminas, Rinaldo Campos Soares, joga futebol com os empregados, Steinbruch costuma chegar e sair de Volta Redonda de helicóptero.
Segundo o editor Luiz Fernando Emediato, “falta uma Erin Brockovich, imortalizada no cinema por Julia Roberts, para transformar a luta inglória em escândalo internacional”.
O próximo livro da coleção “História Agora” será o do jornalista Rui Martins, que explica por que a Suíça entregou Maluf às autoridades brasileiras. Vem mais polêmica por aí.