Por que a vida vale
tão pouco no Brasil? De quem é a culpa
por tantas mortes? Qual é o custo da epidemia
de violência para a sociedade? O pesquisador,
historiador e especialista em literatura médica
Luís Mir passou os últimos cinco anos
tentando responder perguntas intrincadas (e fundamentais)
como essas. O resultado está no monumental
ensaio "Guerra Civil - Estado e Trauma"
(Geração Editorial, 962 páginas,
R$ 79,00), um livro que apresenta uma visão
a um só tempo original e atordoante do problema
da violência cotidiana no país.
Em seu trabalho,
Luís Mir junta medicina e história,
ajudando a compreender os mecanismos sociais e políticos
que resultaram em cinco séculos de segregação
e criaram imensas populações marginalizadas.
Para a medicina, o autor reserva a posição
de ferramenta civilizatória. "Juntei
a história e a medicina com um único
objetivo: apresentar ao país a conta médica
da violência", afirma Luís Mir.
Essa contabilidade
não é apenas financeira, como o autor
descreve com agudeza. "Se os caixões
fossem transparentes, os túmulos translúcidos,
as gavetas dos institutos médicos legais
abertas e ao ar livre, não teríamos
como ignorar a forma humana da morte. Se as vítimas
da guerra ficassem lado a lado, seriam centenas
de quilômetros de corpos estendidos que deveriam
estar vivos, de pé. E se empilhados, a montanha
da morte teria uma base e uma altura de muitas centenas
de metros", escreve Luís Mir no prefácio
da obra.
A história
de uma tragédia
Na primeira parte
do volume, Luís Mir retrocede cinco séculos
para vasculhar as origens históricas da violência
brasileira. Ele constata, antes de tudo, que o estado
de guerra civil é permanente, e não
uma novidade das décadas recentes. "Começamos
com o genocídio dos índios, evoluímos
para o massacre e exploração escravocrata,
ascendemos ao republicanismo com segregação
territorial e econômica e alcançamos
o extremismo étnico e o apartheid com a modernidade",
escreve Mir. "Uma estrada de horrores."
Nessa trágica
travessia, o Estado tem um papel fundamental –
e por isso ele é o ator central do ensaio.
"Nós temos uma constante nesses 500
anos: o Estado sempre foi o maior promotor de violência",
diz o autor. "Ele nunca funcionou como vetor
pacificador e nunca teve, seja na colônia
ou na república, uma proposta de pacificação
do país." Isso significa que as elites
dominantes que controlam o Estado sempre elegeram
a repressão, o uso sistemático da
violência como primeira solução
para lidar com as desigualdades sociais. A redistribuição
de renda – que poderia diminuir o fosso entre
ricos e pobres, entre a elite e os segregados –
nunca foi considerada uma alternativa viável
pelos donos do poder.
Segregação
e repressão
Na verdade, é
exatamente o contrário. Em sua história,
o Brasil empreendeu, de acordo com Luís Mir,
a construção de uma sociedade balcanizada,
que mantém uma segregação baseada
em aspectos étnicos e econômicos. No
nosso país, os marginalizados são,
em grande parte, os descendentes de africanos. "O
edifício social brasileiro é invenção
do escravismo. Marcou seu território, os
espíritos e determina, ainda hoje, as vias
de acesso social e econômico desse país.
A territorialização continua seletiva;
os recursos naturais são utilizados a serviço
de determinados grupos sociais, as migalhas para
a maioria da sociedade", escreve Mir, citando
o geógrafo Milton Santos.
Chega-se, ainda na
primeira parte de "Estado e Trauma", até
o capítulo sobre o que Luís Mir chamou
de “O Terrorismo de Estado”. Ali o autor
analisa as políticas de segurança
pública brasileiras – ou melhor, como
o Estado utiliza as suas forças policiais
para controlar e reprimir aqueles que já
são segregados. "A segurança
pública não é a segurança
de todos", escreve Mir. "O Estado brasileiro
ignora que o fracasso de suas forças repressivas
decorre de que os grupos étnicos e sociais
mais atingidos sabem que não serão
poupados ou beneficiados, e reagem ativamente com
ceticismo e hostilidade." Como conseqüência,
a resposta da polícia é cada vez mais
letal.
O preço da
violência
A segunda metade
do livro tem como foco o debate a respeito do atendimento
ao trauma, especialidade médica que lida
cotidianamente com as vítimas da violência.
"O atendimento aos traumatizados deixou de
ser exclusivamente médico e passou a ser
uma discussão virulenta sobre a guerra civil
que os obriga a trabalhar apenas como cirurgiões
de guerra", escreve Luís Mir. A preocupação
se estende às vítimas da carnificina
do trânsito, que corresponde a uma parcela
importante das vítimas.
É nesse ponto
que "Guerra Civil - Estado e Trauma" se
torna uma leitura atordoante. A conta médica
que se apresenta é praticamente impagável.
A cada ano, cerca de 150 mil pessoas morrem de forma
violenta no país. Aproximadamente 55 mil
dessas vítimas foram alvejadas por armas
de fogo. Esses baleados – e também
os esfaqueados e os atropelados – custam aos
cofres públicos cerca de 19 bilhões
de reais por ano. O valor representa 40% de todo
o gasto governamental na área da saúde
– e isso ajuda a explicar por que o sistema
público de atendimento médico é
muitas vezes precário e outras tantas, insuficiente
para tantas vítimas. O autor apresenta estatísticas
elaboradas por diferentes instituições
para mostrar que o custo da violência atingiu
níveis exorbitantes. Em estados como o Rio
de Janeiro, os gastos com o atendimento às
vítimas da violência chegam a 60% do
total destinado à saúde.
As vítimas
e as soluções
Não é
por acaso que as vítimas da violência,
aquelas pessoas que chegam às emergências
dos hospitais com pouco mais que um fio de vida,
são os mesmos desde sempre na história
do Brasil: os pobres, os negros, os segregados.
São jovens, em sua maioria, de menos de 25
anos. E grande parte dessas vítimas é
morta com um tiro pelas costas, disparada por uma
arma oficial, entregue pelo Estado a um policial.
Os enfrentamentos ocorrem muitas vezes longe dos
olhos das classes dominantes, nas franjas da sociedade
que também podem ser chamadas de favelas.
"As favelas se tornaram campos de concentração.
Ali não existe o tempo, ali não se
tem perspectiva de vida, não tem saúde,
não tem educação, não
tem nada. Ali tem um cerco bélico e militar.
Se sair, leva tiro", afirma Luís Mir.
As soluções
para esse problema passam pelo controle mais rigoroso
das polícias (para que matem menos) e por
oferecer acesso à Justiça às
camadas marginalizadas da população.
Mas a questão de fundo é a desigualdade
econômica do país, com uma massa de
trabalhadores desempregados e cidadãos desamparados
pelo Estado. Sem um projeto nacional que busque
a redistribuição de renda, acredita
Luís Mir, não haverá trégua
nessa guerra crônica em que vivemos. "Não
há maneira de resolver a situação
desse país enquanto a maioria e a minoria
não se sentarem na mesa e discutirem as fatias
do bolo", diz o pesquisador.
Leia
entrevista com Luis Mir
Números
que fazem pensar |
| O
atendimento às vítimas da violência
consome cerca de 21 bilhões de reais
por ano Esse
valor equivale a 40% dos gastos totais com
a saúde, que somam aproximadamente
52 bilhões de reais por ano
Aproximadamente
150 mil pessoas morrem violentamente no Brasil
a cada ano
Dessas
mortes, 55.680 são assassinatos
Com
3% da população mundial, o Brasil
registra 13% de todos os homicídios
do mundo
Na
cidade de São Paulo, se gasta cerca
de 3% de seu Produto Interno Bruto (o equivalente
a 9,3 bilhões de reais, segundo dados
de 1999) no combate à criminalidade
O
1% mais rico da população concentra
quase o mesmo volume de rendimentos do que
os 50% mais pobres.
Na
região metropolitana de São
Paulo, 52,9% dos afro-brasileiros são
pobres
Mais
de 50% dos presos brasileiros são afro-brasileiros
ou mestiços
Mais
de 85% dos crimes praticados no Brasil são
contra o patrimônio, como furtos e roubos
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