Existem dois Congressos,
escreve Lucio Vaz neste livro polêmico e arrasador
(A Ética da Malandragem – No submundo
do Congresso Nacional, Geração Editorial,
232 págs., R$ 32,00). Um deles – o
oficial, digamos assim – é capaz de
fazer uma nova Constituição, aprovar
o impeachment de um presidente, lutar contra a ditadura,
fazer leis para o país crescer. O outro –
subterrâneo, revoltante, criminoso –
vende votos, aluga mandatos e legendas, emprega
parentes, toma dinheiro de humildes funcionários,
exige cargos e verbas do governo federal, assalta
empresários (que aceitam as regras deste
jogo sujo) e até trafica drogas.
É desse submundo que este
livro trata. Seu autor, o jornalista Lucio Vaz,
47 anos, passou os últimos 20 anos de sua
vida em Brasília, trabalhando basicamente
para os jornais Folha de S. Paulo e Correio Braziliense.
Suas reportagens – base para o pavoroso relato
deste livro – tratam de temas sombrios, revoltantes.
Lucio Vaz investigou denúncias
envolvendo deputados, senadores e governadores em
26 Estados. Da pequena e violenta Canapi, em Alagoas
– de onde foi expulso por jagunços
–, de Marabá, no Pará –
onde políticos escravizavam meninos de oito
anos –; de Porto Velho, em Rondônia
– onde um senador acusado de envolvimento
com o narcotráfico acabou fuzilado na véspera
de uma eleição –, aos próprios
ambientes do Congresso Nacional – onde se
consomem 15 quilos de cocaína por mês
–, Lucio Vaz vai enumerando histórias
de arrepiar os cabelos.
Seria o Congresso Nacional, com seu
lamentável submundo, um irradiador destes
maus costumes pelo país afora? Ou –
o que parece mais trágico – será
o Congresso, na verdade, com seus homens todos eleitos
pelo voto popular, um triste espelho da Nação
e de seu povo?
Os duros generais da ditadura militar
– que desprezavam o Congresso – não
acreditavam na democracia. Um herói popular
brasileiro – Pelé – disse uma
vez que “o brasileiro não sabia votar”.
Ao final da leitura deste livro, é inevitável
um perigoso pensamento: se é assim, para
que serve a democracia? Não seria melhor
fechar esta Casa corrompida e abjeta?
Felizmente, não. A democracia
ainda é o menos pior dos regimes, e a ditadura,
qualquer ditadura, acaba atentando, ao final, não
só contra a liberdade, mas contra a própria
vida. E, como já ficou claro, existem dois
Congressos: um deles, cujo tamanho precisamos ainda
esclarecer, é aquele que faz uma Constituição,
luta pela liberdade, vigia o Estado e até
depõe um presidente. Vale a pena apostar
que um dia será este Congresso – e
não o outro – que prevalecerá.
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prefácio de Eliane Cantanhede