Quinta, 11 de Março de 2010
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ENTREVISTA
José Maria Mayrink


O título do seu livro, Vida de Repórter, empresta o nome à coleção que a Geração Editorial está lançando, sobre a aventura da reportagem. Após 40 anos nesta atividade, o senhor ainda tem o gosto por esta aventura?

Mayrink -
A resposta está no livro: não me venham falar em aposentadoria, aos 63 anos de idade e 40 de profissão. Trabalho com a possível garra e, com certeza, com muito gosto. Cada reportagem é uma aventura, pequena ou grande, mas uma aventura. Tenho ainda o entusiasmo de um foca, com algumas de suas qualidades e muito de suas falhas. Às vezes, recebo uma pauta que exige mais esforço, ou que não me encanta de início, mas sempre acabo me envolvendo com a história. Quando o jornal sai, costumo lamber a cria, como se estivesse começando agora. Como está escrito no livro, que Deus me dê força e saúde., pois gosto é o que não falta.

Freqüentemente suas reportagens tratam de personagens marginalizados, como presidiários, prostitutas e mendigos. Por que a escolha pelo retrato desta realidade? Em algum momento em todos estes anos o senhor sofreu oposição ou vetos a estes temas?

Mayrink -
A boa reportagem supõe contato direto com a realidade. Esses personagens - mendigos, prostitutas, presidiários e outros excluídos da sociedade - têm a minha preferência, embora não sejam exclusivos, pois o jornalismo tem horizonte amplo e sempre imprevisível. Há alguma afinidade com o tema, mas nem sempre a escolha é minha. As sugestões, pedidos e ordens partem de colegas e da chefia. A afinidade pode ter uma explicação em minhas raízes - nasci no interiro, na cidadezinha mineira de Jequeri, onde esse cenário de pobreza e pessoas sofridas sempre me foi familiar. É também herança de meu pai, médico da roça, que se dedicou à gente pobre por vocação e gosto. Não me lembro de restrição ou veto. O jornal sempre abriu espaço a essas histórias.

Como o senhor avalia a imprensa brasileira em geral, e a reportagem especificamente, nos dias de hoje?

Mayrink -
Acabou aquele romantismo que animava os sonhos do jornalista no passado, a imprensa se modernizou, os jornais estão mais contidos. Bom ou ruim? Há vantagens e desvantagens, mas não é questão de se lamentar. A boa reportagem sempre é capaz de abrir espaço. Investe-se menos no repórter, certamente, por contenção de despesas ou por opção editorial. Cabe à reportagem lutar pelo seu lugar. Os jornais brasileiros são bem melhores que 40 anos atrás, quando se analisa o quadro geral. Pois havia exceções. Acho que, dispondo de tantos recursos da modernidade, temos de ficar atentos para não sucumbir às suas armadilhas. Internet, por exemplo, ajuda mas não deve anular o repórter.

Como o senhor lida com o embate entre a sua visão de mundo e as tão propagadas "objetividade" e "imparcialidade" jornalísticas?

Mayrink -
A visão de mundo do profissional reflete-se em seu trabalho. No jornalismo e também em outras áreas. Por mais objetivo e imparcial que eu tente ser, sempre haverá alguma coisa de mim em minhas reportagens. Na medida em que escolho um tema, seleciono as fontes e delimito o espaço, já estou comprometendo, de certa maneira, a pretendida imparcialidade. O texto traduz sentimentos, análises, emoções, interpretações, o pensamento do repórter. Para o bem ou para o mal. Importante é que esse viés pessoal não comprometa a informação.

Em 40 anos de reportagem o senhor passou por situações as mais diversas, desde o terror da censura até o recente crime cujos personagens faziam parte da redação de "O Estado de S. Paulo", onde o senhor trabalha. De toda esta experiência, que momentos registrados em Vida de Repórter o senhor apontaria como o mais trágico e qual o que lhe despertou mais esperança e confiança?

Mayrink -
O mais trágico foi sem dúvida o crime de um diretor de Redação que assassinou uma ex-colega de trabalho. As conseqüências pessoas foram pesadas, sofri até uma gastrite hemorrágica, mas foram apenas parte de uma tragédia muito mais ampla. No livro, restringi-me deliberadamente ao aspecto pessoal. Felizmente, a profissão tem outro lado. Sempre teve. Eu não apontaria um momento especial de esperança e confiança. Creio que se trata de um conjunto, de todo um cenário que, nesses 40 anos, me alimentou a fé profissional e o entusiasmo do trabalho. Se é possível falar em vocação, acho que acertei a minha ao optar pelo jornalismo. E, especialmente, pela reportagem. Seria privilégio para qualquer pessoa viver os acontecimentos e conhecer os personagens que eu vivi e conheci.

Alguns interpretam o mundo pelas lentes da sociologia, outros da psicanálise ou da arte. Como é olhar o mundo com os olhos de repórter?

Mayrink -
Repórter é testemunha de seu tempo. Não me cabe analisar o mundo pelas lentes de outros profissionais, mas descrever fatos e registrar emoções com a visão e a possível fidelidade de um observador atento que capta e retransmite a notícia, ou seja, os flashes de uma história. Como repórter, tenho de ser porta-voz ou intérprete de meus personagens. Se for o caso, valendo-me da sabedoria e da colaboração de sociólogos, psicanalistas, cientistas e outros especialistas. Sempre que achei que o melhor do meu texto é aquilo que vem entre aspas, ou seja, o depoimento de outras pessoas. A visão do mundo varia de acordo com os atores.

Que conselhos o senhor daria a quem quer ingressar na vida de jornalista?

Mayrink -
Que só abrace essa profissão se tiver vontade e gosto. Vida de repórter tem suas alegrias, e muitas, mas também exige desprendimento e sacrifício. Não só do jornalista, também e sobretudo de sua família. Não é à toa que dediquei esse livro a Maria José, companheira querida, solidária até nas reportagens mais arriscadas. Jornalismo é uma profissão que exige tempo integral, dedicação exclusiva, gosto e entusiasmo. Felizmente, foi-se o tempo em que trabalhar em jornal era um bico para complementação de salário ou trampolim para vantagens paralelas.

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