|
Entrevista publicada no Jornal O Liberal, 16.05.2005
- Caderno Cartaz - www.oliberal.com.br
Por que você teve a idéia
de fazer uma pesquisa sobre este assunto?
Por causa do mistério. Não
se falava nada sobre o caso, não se sabia nada,
e por crescer em meio de militares eu não entendia
porque não se falava disso.
Ser filha de pai militar foi benéfico ou prejudicial
para a coleta de informações?
Comecei indo atrás dos documentos
que a Márcia Bandeira, filha do General Bandeira,
entregou para a jornal O Globo. Se ela pôde
ter acesso, eu também poderia ver. A partir
daí eles foram abrindo. Não adianta:
você conhece uma fonte, que conhece outra, que
te indica para outra. Se você não conhece
alguém que ligue e te indique para outra fonte
te receber, não adianta, ninguém te
recebe. Acho que até esperavam que eu fosse
panfletária para o lado deles, mas não
puxei o saco de nenhum dos lados, até porque
cada um quer fazer o seu marketing, mas os militares
pouco falam sobre o livro, não houve nem retaliação.
A minha principal fonte, quando me entregou a pasta
do General Bandeiara, disse “leia, tire suas
conclusões e depois me procure para a gente
conversar”. Me senti bastante livre, e por isso
o cerne do livro está nos documentos, não
estou especulando nada. Muita gente de esquerda me
criticou por ter usado como base documentos de militares,
mas esses são os documentos que existem sobre
essa história.
Entre esses documentos, o que
mais impressionou você?
Sem dúvida, o último
relatório de 1974, com informações
sobre a Operação Marajoara, afirmando
tudo o que é bárbaro nesta história:
afirma que a guerrilha estava neutralizada, que não
tinha armas suficientes e que, mesmo enfraquecidos,
eles foram massacrados. O relatório data de
janeiro de 1974, mas a guerrilha ainda vai até
janeiro de 1975.
Você também abre
espaço para falar sobre os jovens militares
que acabaram morrendo na guerrilha ...
Apurei três histórias
de militares - mas só entraram duas no livro
- que eram parecidas. Nos três casos fala-se
de corpos que chegaram em casa e que a família
teve como informação apenas que eles
morreram em serviço. As Forças Armadas
não ajudaram essas famílias de jovens
mortos, muitas não sabem nem que eles morreram
no Araguaia. Algumas conseguiram, por meio da Justiça
Civil, receber pelo menos o soldo para criar os filhos
desses soldados mortos. Mas a família do Cabo
Rosa (primeiro militar morto por guerrilheiros), por
exemplo, nunca recebeu nada. As famílias de
guerrilheiros mortos já receberam indenização.
Não entendo a omissão do Estado com
seu próprio contingente que morre “a
serviço da pátria”.
E quanto à tão
esperada abertura dos arquivos militares? Podem surgir
daí mais informações ainda desconhecidas
neste quebra-cabeças?
Documento sobre o caso não há
mais, porque os documentos são de militares
e estão todos no livro. Essa história
de arquivo é mito, não vai se descobrir
coisa ruim nele. Vou explicar: nunca vi documentos
escritos que revelam “torturamos a vítima
a noite inteira”, “batemos nele até
a morte”, etc. Os documentos são para
relatar ações de forma mais ampla.
Mas se os personagens ainda
estão vivos, porque não se chega a uma
versão definitiva dessa história?
Acredito que tenha havido mesmo uma
conspiração do silêncio de ambas
as partes. Primeiro porque, mesmo se a partir de ordens
ou não, os militares não vão
admitir que mataram os guerrilheiros. Mas hoje também
acredito no silêncio da esquerda. Senão,
por que os oito corpos que foram encontrados em Xambioá
continuam sem identificação por parte
do PC do B? Por que ninguém vai lá fazer
o reconhecimento de fato? Há silêncio
de ambos os lados. Os únicos que falam mesmo
são os camponeses, que foram envolvidos sem
saber do que se falava. Não sabiam o que era
comunismo, subversão, guerrilha - e em muitos
casos foram torturados para revelar quem eram os guerrilheiros,
que para eles eram apenas o barqueiro, o dentista...
Por que nenhuma família de camponês ou
militar morto foi indenizada? Qual é o critério
que dita que só os guerrilheiros merecem isso?
Por que o Sebastião Curió (na época
capitão do Exército e símbolo
da repressão contra o movimento armado do PC
do B) continua administrando a Serra Pelada, conseguiu
construir uma cidade com seu nome (Curionópolis)
e de onde se elegeu prefeito três vezes? Há
alguns anos ele matou dois adolescentes em Brasília,
mas nunca foi condenado por isso, e o Estado sabe
de tudo o que ele faz: sabe que tem uma rede de pistoleiros
e que comanda grupos de madereiros que acabam com
a floresta. Por que o Estado e as Forças Armadas
continuam fazendo vista grossa aos seus desmandos?
Em recente entrevista a O LIBERAL,
Curió disse que Serra Pelada foi uma ação
do governo militar contra uma ação terrorista
da esquerda clerical, estratégia para organizar
o povo sob o comando do Estado, e esvaziando qualquer
tentativa de que outro movimento de esquerda pudesse
voltar para a região. Você concorda?
Não, porque enquanto a guerrilha
existiu ali, em 1970, 72, 74, a Serra Pelada foi construída
na década de 80, quando já havia uma
maior flexibilidade no sistema político e a
esquerda estava impossibilitada de organizar qualquer
movimento armado. Acho que foram outros interesses
que motivaram isso, até porque tem camponês
que não quis saber de ouro. Eles queriam saber
de peixe, de terra para plantar e colher, de ter farinha
na hora da refeição. Para eles, isso
bastava. E você conhece algum garimpeiro que
ficou efetivamente rico? Gostaria de saber por que
aquela figura (Curió) foi parar lá.
Há relatos de que saíam do garimpo caixas
e caixas de ouro para a presidência da República,
mas onde está a benfeitoria que esse ouro trouxe
ao país?
Na sua análise, porque
a guerrilha não conseguiu alcançar seus
objetivos?
Acho que eles não estavam preparados.
Para se ter uma idéia, quando a guerrilha estava
estourando, ainda havia gente chegando. É engraçadíssimo
o depoimento do Dagoberto, que chegou com o Chicão
na região exatamente no dia que começou
a guerrilha, em 1972. Ele diz que nunca tinha atirado.
No momento em que o movimento é descoberto,
o Exército tomou um pau.
Quando os guerrilheiros sentiram que
tiveram uma trégua, se sentiram vitoriosos,
com a guerra ganha. Ao invés de ir para uma
área de refúgio, como é normal
nesses casos, ficaram no mesmo lugar e deixaram o
caminho livre para serem pegos. Sem contar que um
grupo propôs essa retirada, mas outro decidiu
ficar, e essa divergência de comando também
desmobiliza.
Você teve informações
sobre onde estão os corpos desaparecidos?
Isso é uma incógnita,
mas há uma coisa que os militares falam que
é real: se alguém morre em combate,
não recolho porque senão viro alvo.
Vou levar o meu amigo, mas não levo um corpo
de inimigo, abandono lá. Isso pode ter mesmo
acontecido. Outros que foram fuzilados na base estão
em cemitérios com certeza, tanto que cinco
já foram apontados por colonos no cemitério
de Xambioá e outros foram encontrados na reserva
Suruí-Sororó. Não tem porque
discordar da população, que aponta mesmo
onde viu os corpos sendo enterrados.
Com o livro você pretende
que a Guerrilha do Araguaia seja mais conhecida pelo
resto do país? Muitos têm a impressão
de que esse assunto só é profundamente
conhecido por quem fez parte dele ou para quem vive
na região Norte, porque o resto do Brasil parece
ignorá-lo.
Essa foi uma história mantida
em silêncio. Poucos sabem que morreram aqui
pessoas do Brasil todo, inclusive entre os militares.
O livro foi feito com essa intenção,
porque as pessoas precisam conhecer essa história.
O jovem de hoje não sabe nada sobre a Guerrilha
do Araguaia, pode perguntar para qualquer um. Soldados
entram e saem do Exército sem saber. Os livros
de hitória oficial utilizados nas escolas tratam
superficialmente das guerrilhas urbanas, mas nada
do Araguaia. Estou planejando propor às secretarias
de educação dos três Estados mais
envolvidos, Maranhão, Tocantins e Pará,
para ver se os alunos podem ter acesso ao livro a
partir dos conteúdos paradidáticos.
O que você achou do filme
“Araguaia - A Conspiração do Silêncio”?
Discuto muito com o Duque (Ronaldo
Duque, diretor do filme) sobre isso, porque não
é a guerrilha que está ali. Ele me disse
que ela é apenas um mote, é uma ficção,
e quanto a isso tudo bem. O filme é muito bonito,
bem filmado, julgo uma excelente produção,
mas se a intenção dele fosse mostrar
a realidade, a gente iria se confrontar. Primeiro
porque o Rio Araguaia não aparece. Segundo
porque mostra a visão da Criméia, guerrilheira
que saiu em junho de 1972 porque estava grávida,
e do Michéas, que fugiu em 1974. Outro erro
é pegar frases que ficaram famosas na boca
de um guerrilheiro, e que no filme aparecem ditas
por outros. Mas olho como obra de arte. Com certeza
se fosse um filme do Walter Salles seria bem mais
água com açúcar.
|