1) Durante
30 anos de jornalismo, você escreveu muitas
reportagens, mas as que mais tiveram destaque diziam
respeito ao Lula e ao PT. Como avalia o momento
atual, tendo em vista que acompanhou de perto todo
o percurso percorrido por Lula até seu ingresso
no Planalto?
Em um dos anexos de “Já vi esse
filme” apresento uma relação,
que estimo completa, de 100 matérias sobre
a pauta Lula/PT entre 1984 e 2005. Deve chegar,
mais ou menos, a 20% do que produzi ao longo desses
anos. Algumas delas tiveram uma repercussão
maior – Lurian, Caso CPEM, caso do deputado
Ricardo Moraes, apartamento do Lula, entre outras
– e são estas que ganham maior destaque
no livro, com sua história, bastidores,
transcrições e polêmicas que
provocaram, com réplicas e tréplicas.
Evitei, deliberadamente, emitir opiniões
ou fazer paralelos diretos entre o ontem e o hoje.
Assinalo, na introdução, a evidência
de que nos últimos meses o grupo petista
que tomou o poder vem enfrentando a maior crise
que o partido e o governo já viveram. A
idéia é deixar que o leitor tire
suas próprias conclusão. Imagino
que a leitura das diversas reportagens mostrará
cenas que se repetiram em escala maior depois
da chegada ao poder.
2) Seu livro mostra que muito do que atualmente
ocorre com o PT e seus membros não é
novidade. O próprio título, "Já
Vi Esse Filme", mostra que os acontecimentos
que apimentam a crise atual não são
novos — corrupção, nepotismo,
favorecimentos, empréstimos etc. A seu
ver, confirmaria-se, então, a má
fama que o brasileiro tem de possuir memória
fraca com relação a fatos políticos?
De maneira geral, com as exceções
de praxe, a mídia tem responsabilidades
por essa memória fraca, à medida
em que não dá seqüência
e acompanhamento sistemático a alguns episódios.
Um exemplo é o caso CPEM, que agora volta
à tona com a convocação de
Paulo de Tarso Venceslau e Roberto Teixeira à
CPI dos Bingos. A reunião de todas essas
reportagens em um livro, com a visão do
outro lado, resgata uma idéia de conjunto
que possibilitar entender melhor o enredo do filme.
3) Em 1999, o veto, por parte de Lula,
à sua participação no programa
"Roda Viva" teve destaque tanto pelo
veto em si como pelo acatamento por parte do programa.
Lula ficou com medo de enfrentar as perguntas
que o senhor fatalmente faria e que ele não
gostaria de responder ou de esclarecer?
Disse, à época, e repito, que
é da democracia qualquer entrevistado recusar-se
a dar entrevistas para quem não queira.
Só discuti, e discuto, as razões
que o Lula então apontou para tentar justificar
o veto, tema de um capítulo extenso, onde
o outro lado também está presente.
Lamentei, e lamento, que o programa da TV Cultura
tenha aceitado o veto, a meu ver uma manchinha
de nada na vitoriosa trajetória do Roda
Viva, onde aliás compareci, antes desse
episódio, uma tantas vezes. Ao assistir
o Lula no recente programa número mil,
voltei a lembrar—me do caso, como não
poderia deixar de ser.
4) O caso do assassinato do prefeito
Celso Daniel está longe de ser concluído
e a cada dia novos elementos vêm a público.
O livro mostra reportagens sobre denúncias
de nepotismo e irregularidades cometidas na prefeitura
antes do acontecimento, inclusive o enriquecimento
duvidoso de Sérgio Sombra, principal suspeito
do crime. Qual é a sua opinião sobre
isso?
Salvo engano, fui o primeiro a revelar o tráfico
de influência de Sérgio Gomes da
Silva na prefeitura de Santo André, durante
o segundo mandato de prefeito Celso Daniel, mostrando,
no Estadão, o inexplicável crescimento
de seu patrimônio com depósitos provenientes
de empresas que prestavam serviços à
prefeitura. Essas e outras reportagem sobre o
caso ainda não esclarecido também
estão no livro, incluindo as matérias
sobre dois diálogos intrigantes das fitas
que agora estão na CPI dos Bingos. Incluí
um artigo onde afirmo que as coisas poderiam ter
sido diferentes se Celso Daniel tivesse encarado
de frente o problema Sérgio Gomes quando
a isso foi solicitado. Mas ele sempre recusou-se
a dar entrevistas sobre a atuação
do hoje denunciado como mandante do crime.
5) Em alguns momentos do livro (principalmente
em relação às opiniões
do jornalista e professor Bernardo Kucinski),
fica evidente uma postura reacionária por
parte da direção do PT e uma intolerância
com a liberdade de imprensa — talvez pelo
alvo certeiro das suas reportagens. Como você
avalia a ética no jornalismo atual?
Vai melhor do que já foi, principalmente
nos veículos nacionais de maior alcance,
mas ainda há escorregões freqüentes.
O mais importante, nesses casos, é que
essa preocupação está crescendo,
também como reflexo das exigências
de uma parcela dos leitores e da atuação
da crítica da mídia.
No caso de Bernardo Kucinski, o leitor de “Já
vi esse filme” observará que ele
é figura recorrente em determinado trecho.
Em um dos livros que escreveu, ele omitiu dos
leitores a tréplica que fiz a seus ataques,
quando escreveu em nome do PT. No “Já
vi esse filme” tem o ataque e a defesa.
6) Você apresenta um perfil sobre
Antonio Palocci enfatizando seu espírito
conciliador, ainda atuando como coordenador-geral
da campanha de Lula. Atualmente, o ministro da
fazenda encontra-se no olho do furacão,
sendo acusado de arrecadação de
recursos clandestinos, entre outras coisas. O
senhor considera que uma eventual saída
do ministro do governo provocaria uma grave crise
econômica?
Não mudaria essencialmente a política
econômica do governo, que é muito
mais conservadora do que se poderia imaginar que
viesse a ser. A matéria referido é
um perfil do ministro ainda no tempo do governo
de transição. O interessante é
que já estão lá o Buratti,
a Leão & Leão e outros questionamentos
à sua gestão na prefeitura de Ribeirão
Preto, mais uma vez de volta à cena.
7) No mês de julho, o famoso jornal
americano "Herald Tribune" declarou
em uma reportagem que o escândalo "decretava
a morte do lulismo" e reduzia a "aura"
do presidente Lula. Na sua opinião, quais
serão as próximas etapas da crise?
O lulismo está com os dias contados?
Não creio. A imagem do presidente sofreu
abalos consideráveis, e talvez mais sérios
do que ele próprio imagine, mas, nas condições
de hoje, até pelo apoio de expressiva parcela
do eleitorado, não está colocado
este projeto político tenha chegado ao
esgotamento. Se as lições da crise
forem aproveitadas com radicalidade – e
parece que não estão sendo –
ainda há muito água para passar
embaixo da ponte. Se “Já vi esse
filme” contribuir um mínimo que seja
para a necessária radicalidade dessa autocrítica,
já terá cumprido seu papel.