Quinta, 02 de Setembro de 2010
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ENTREVISTA
Luiz Maklouf Carvalho

1) Durante 30 anos de jornalismo, você escreveu muitas reportagens, mas as que mais tiveram destaque diziam respeito ao Lula e ao PT. Como avalia o momento atual, tendo em vista que acompanhou de perto todo o percurso percorrido por Lula até seu ingresso no Planalto?

Em um dos anexos de “Já vi esse filme” apresento uma relação, que estimo completa, de 100 matérias sobre a pauta Lula/PT entre 1984 e 2005. Deve chegar, mais ou menos, a 20% do que produzi ao longo desses anos. Algumas delas tiveram uma repercussão maior – Lurian, Caso CPEM, caso do deputado Ricardo Moraes, apartamento do Lula, entre outras – e são estas que ganham maior destaque no livro, com sua história, bastidores, transcrições e polêmicas que provocaram, com réplicas e tréplicas. Evitei, deliberadamente, emitir opiniões ou fazer paralelos diretos entre o ontem e o hoje. Assinalo, na introdução, a evidência de que nos últimos meses o grupo petista que tomou o poder vem enfrentando a maior crise que o partido e o governo já viveram. A idéia é deixar que o leitor tire suas próprias conclusão. Imagino que a leitura das diversas reportagens mostrará cenas que se repetiram em escala maior depois da chegada ao poder.

2) Seu livro mostra que muito do que atualmente ocorre com o PT e seus membros não é novidade. O próprio título, "Já Vi Esse Filme", mostra que os acontecimentos que apimentam a crise atual não são novos — corrupção, nepotismo, favorecimentos, empréstimos etc. A seu ver, confirmaria-se, então, a má fama que o brasileiro tem de possuir memória fraca com relação a fatos políticos?

De maneira geral, com as exceções de praxe, a mídia tem responsabilidades por essa memória fraca, à medida em que não dá seqüência e acompanhamento sistemático a alguns episódios. Um exemplo é o caso CPEM, que agora volta à tona com a convocação de Paulo de Tarso Venceslau e Roberto Teixeira à CPI dos Bingos. A reunião de todas essas reportagens em um livro, com a visão do outro lado, resgata uma idéia de conjunto que possibilitar entender melhor o enredo do filme.

3) Em 1999, o veto, por parte de Lula, à sua participação no programa "Roda Viva" teve destaque tanto pelo veto em si como pelo acatamento por parte do programa. Lula ficou com medo de enfrentar as perguntas que o senhor fatalmente faria e que ele não gostaria de responder ou de esclarecer?

Disse, à época, e repito, que é da democracia qualquer entrevistado recusar-se a dar entrevistas para quem não queira. Só discuti, e discuto, as razões que o Lula então apontou para tentar justificar o veto, tema de um capítulo extenso, onde o outro lado também está presente. Lamentei, e lamento, que o programa da TV Cultura tenha aceitado o veto, a meu ver uma manchinha de nada na vitoriosa trajetória do Roda Viva, onde aliás compareci, antes desse episódio, uma tantas vezes. Ao assistir o Lula no recente programa número mil, voltei a lembrar—me do caso, como não poderia deixar de ser.

4) O caso do assassinato do prefeito Celso Daniel está longe de ser concluído e a cada dia novos elementos vêm a público. O livro mostra reportagens sobre denúncias de nepotismo e irregularidades cometidas na prefeitura antes do acontecimento, inclusive o enriquecimento duvidoso de Sérgio Sombra, principal suspeito do crime. Qual é a sua opinião sobre isso?

Salvo engano, fui o primeiro a revelar o tráfico de influência de Sérgio Gomes da Silva na prefeitura de Santo André, durante o segundo mandato de prefeito Celso Daniel, mostrando, no Estadão, o inexplicável crescimento de seu patrimônio com depósitos provenientes de empresas que prestavam serviços à prefeitura. Essas e outras reportagem sobre o caso ainda não esclarecido também estão no livro, incluindo as matérias sobre dois diálogos intrigantes das fitas que agora estão na CPI dos Bingos. Incluí um artigo onde afirmo que as coisas poderiam ter sido diferentes se Celso Daniel tivesse encarado de frente o problema Sérgio Gomes quando a isso foi solicitado. Mas ele sempre recusou-se a dar entrevistas sobre a atuação do hoje denunciado como mandante do crime.

5) Em alguns momentos do livro (principalmente em relação às opiniões do jornalista e professor Bernardo Kucinski), fica evidente uma postura reacionária por parte da direção do PT e uma intolerância com a liberdade de imprensa — talvez pelo alvo certeiro das suas reportagens. Como você avalia a ética no jornalismo atual?

Vai melhor do que já foi, principalmente nos veículos nacionais de maior alcance, mas ainda há escorregões freqüentes. O mais importante, nesses casos, é que essa preocupação está crescendo, também como reflexo das exigências de uma parcela dos leitores e da atuação da crítica da mídia.
No caso de Bernardo Kucinski, o leitor de “Já vi esse filme” observará que ele é figura recorrente em determinado trecho. Em um dos livros que escreveu, ele omitiu dos leitores a tréplica que fiz a seus ataques, quando escreveu em nome do PT. No “Já vi esse filme” tem o ataque e a defesa.

6) Você apresenta um perfil sobre Antonio Palocci enfatizando seu espírito conciliador, ainda atuando como coordenador-geral da campanha de Lula. Atualmente, o ministro da fazenda encontra-se no olho do furacão, sendo acusado de arrecadação de recursos clandestinos, entre outras coisas. O senhor considera que uma eventual saída do ministro do governo provocaria uma grave crise econômica?

Não mudaria essencialmente a política econômica do governo, que é muito mais conservadora do que se poderia imaginar que viesse a ser. A matéria referido é um perfil do ministro ainda no tempo do governo de transição. O interessante é que já estão lá o Buratti, a Leão & Leão e outros questionamentos à sua gestão na prefeitura de Ribeirão Preto, mais uma vez de volta à cena.

7) No mês de julho, o famoso jornal americano "Herald Tribune" declarou em uma reportagem que o escândalo "decretava a morte do lulismo" e reduzia a "aura" do presidente Lula. Na sua opinião, quais serão as próximas etapas da crise? O lulismo está com os dias contados?

Não creio. A imagem do presidente sofreu abalos consideráveis, e talvez mais sérios do que ele próprio imagine, mas, nas condições de hoje, até pelo apoio de expressiva parcela do eleitorado, não está colocado este projeto político tenha chegado ao esgotamento. Se as lições da crise forem aproveitadas com radicalidade – e parece que não estão sendo – ainda há muito água para passar embaixo da ponte. Se “Já vi esse filme” contribuir um mínimo que seja para a necessária radicalidade dessa autocrítica, já terá cumprido seu papel.

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