Quinta, 02 de Setembro de 2010
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ENTREVISTA
Luiz Mendes

Como surgiu Tesão e Prazer? Por que sexo?

Surgiu da própria necessidade de pesquisar e compreender o que foi e o que é essa vida pulsante que ardia em tudo o que vivi desde menino. Sexo porque essa selva escura e úmida que ruge por debaixo de minha pele sempre preponderou a confundir. O confuso, o caos, sempre me atraiu demais.

Abordar um tema como o sexo, sem papas na língua, mas sem perder a literariedade, é tarefa para poucos corajosos e capazes. Como se sente tendo escrito um livro de alta voltagem erótica que, apesar disso, é na verdade uma grande historiografia de sua própria história íntima?

Não sei se sou corajoso e muito menos se sou capaz. Sei apenas que sou voraz. E que havia um tesão acobertado em feltro que foi fazendo caminho pela minha carne trêmula até encontrar as palavras. Claro, procurei fossem as melhores. Sinto-me tranqüilo [com isso]. Minha realidade se compõe de todo esforço que sou capaz de arremeter. Eu, que vivi me perdendo de mim mesmo, apenas estou a me reaver. Simples. Não havia nenhuma intenção erótica, apenas eu me olhando. Nada chocante.

Quais seus próximos projetos?

Estou com um livro na Companhia das Letras. É a continuação do meu primeiro livro, Memórias de um Sobrevivente. O título provisório é Memórias... II. Já foi aprovada a edição; a editora está trabalhando nele. Tenho um livro de crônicas a ser selecionado, com os textos da minha coluna na Revista Trip e outros. Estou com outro livro que reúne 49 contos, que preciso revisar e fazer seleção mais rígida antes de discutir edição. Estou no capítulo 26 do livro Memórias de um Sobrevivente III que conclui a saga até os dias de hoje. Tenho esboço de um livro, Seqüestro, já manuscrito e que preciso reescrever. Estou com mais duas idéias registradas (começo, meio e fim) para escrever mais dois outros livros. O problema é o tempo, os olhos que ardem e a alma que aperta.

Existe preconceito quanto à literatura erótica, considerada um gênero "menor". Como vê isso?

Acho muito estranhas essas subdivisões literárias. Para mim não existe partições. Tudo é literatura. Sei dividir apenas em literatura que me agrada e que não agrada. Sou leitor ensandecido. Leio sofregamente, compulsivamente.

Você é autodidata e começou a se interessar por livros na prisão. Como foi isso?

Comecei a ler porque era a única alternativa para não enlouquecer. Depois ler foi sendo uma salvação para todos os momentos. Um costume, um prazer imenso.

Por que a literatura? O que e quem gosta de ler?

Literatura porque, nas masmorras geladas onde estive, [ela] encheu meu pensamento das cidades, das pessoas e de um mundo além de meu corpo naufragado naquelas parcas celas. Já li de tudo que pude. Houve um tempo em que li muitos romances. Depois passei por várias fases. Antropologia, filosofia e história são os campos onde tenho mais afinidades. Mas sempre estive lendo literatura, mas aí para meu lazer; um prazer pessoal. Atualmente leio muita poesia e literatura interessante. Recentemente li uma biografia de [Jean] Genet de quase 800 páginas que me encheu de prazer. No momento leio três livros de uma vez (costume meu): Apelo às Trevas, de Denis Lehane; Vida e Época de Michael K, de J.M. Coetzee; e Prova Contrária, de meu amigo Fernando Bonassi. Alguns autores atualmente me fascinam: Arturo Pérez-Reverte; João Ubaldo Ribeiro; Charles Bukowski; Denis Lehane.

Existe hoje um nicho editorial que poderíamos, grosso modo, chamar de "literatura prisional" - relatos confessionais de pessoas que cometeram crimes. Isso o incomoda? Vê com bons olhos?

Não, não me incomoda de modo algum. Desde que não seja salvacionista, claro que vejo com bons olhos. O preso precisa expor o que é prisão e seu sofrimento. As pessoas aí fora não sabem de nada. Pensam que estar preso é apenas perder a liberdade. E é muito mais, infinitamente mais. E somente nós temos autoridade para dizer. É um mundo desconhecido, uma antropologia a ser estudada e definida.

Considera-se dentro desse gênero? Aliás, como vê o gênero?

Sim, de algum modo estou inserido no gênero, com alguns de meus livros. Mas há outros que pouco têm a ver com prisão, e à medida em que avanço no meu trabalho, a tendência é me descolar. Mas não vou esquecer e tudo farei para incentivar. O preso tem que escrever. Assim como o negro; o favelado; o homossexual; e todas as minorias.

Seus dois últimos livros foram, em certa extensão, autobiográficos. Planeja escrever ficção?

Sem dúvida. Caminho para a ficção cheio de prazer. Em meu livro de contos, tenho muitos contos ficcionais. Seqüestro é uma obra de ficção. Adorei usar a imaginação. É muito mais gostoso e satisfatório. O que escrevo é sempre melhor que meus devaneios. A fome de viver me desespera mais que a tristeza pelo que não vivi. Busco um sabor entre as vozes que não ouço; cores que não vejo e tudo o que não percebo. Ardentemente aspiro por saber, ao longe e acima, por que tudo tem que ser assim.

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