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ENTREVISTA
Luis Mir

"O Estado tem que assumir o seu papel
de agente civilizador e pacificador"

Por que o senhor resolveu escrever esse livro?

Luís Mir -
O livro nasceu da constatação da existência de um estado de guerra civil crônico no Brasil. Nós não temos agora uma violência melhor ou pior do que sempre tivemos. O que ocorre é que a violência está mudando de forma, está mudando de letalidade e está penalizando extremamente as populações segredadas, as populações pobres do país. São 150 mil mortes violentas que o país tem por ano, o que é um verdadeiro cataclisma humanitário. A partir do momento que a gente retira exclusivamente do atendimento médico as vítimas da violência brasileira, nós damos a elas o status histórico.

O que o senhor pretendeu mostrar?

Mir -
A primeira decisão foi apresentar a conta médica da guerra ao país. O sistema de saúde pública é caótico? Ele está em colapso? Está. Por quê? É por causa da violência. A violência está levando 40% do orçamento total destinado à saúde. Em alguns estados, como o Rio de Janeiro e São Paulo, leva mais de 60%. O que representa isso? Nós temos, segundo os dados oficiais, em torno de 28 bilhões de reais, do Ministério da Saúde, do sistema público de saúde nas três instâncias. Disso, a violência está levando cerca de 14 bilhões, está levando a metade. As pessoas desconhecem, por exemplo, que um dia de UTI custa cinco mil reais. E que a média de internação por trauma, por violência no Brasil é de 20 dias. Então são 100 mil reais. Quer dizer, aquele atropelado, baleado, esfaqueado, pode custar até 100 mil reais. Não há sistema que agüente isso.

A violência prejudica todo sistema?

Mir - Isso mesmo. O custo médio do atendimento a atropelados e baleados no país está em 35 mil reais. Outra coisa: a violência é tamanha, as vítimas são de tal número que se cria um absoluto descontrole na porta de entrada dos hospitais. Quem é paciente crônico, que precisa de um atendimento programado previamente, é misturado com baleados e atropelados. Então, a rede hospitalar não atende nem os pacientes crônicos nem os pacientes de trauma. O sistema entrou em colapso inclusive no aspecto da triagem.

O que há de comum nesses cinco séculos de Guerra Civil no país?

Luís Mir -
Em primeiro lugar, nós temos uma constante invariável: o Estado sempre foi o maior promotor de violência. O Estado brasileiro, seja no seu estamento militar seja no seu estamento policial, sempre adotou uma postura violenta em relação à população. Como a maioria do país sempre foi pobre e miserável, o Estado sempre achou que era preciso impôr a disciplina e depois a repressão, a violência necessária pra controlar. A gente não pode falar em violência do povo brasileiro, a gente tem que falar de violência do Estado.

E quem são as vítimas?

Mir -
As vítimas são sempre as mesmas: os pobres, os negros, os segregados, os marginalizados. Quando a violência começa a atingir pessoas das ditas etnias dominantes, das classes dominantes do país, a primeira coisa que se pede é mais repressão, mais polícia, mais armas. Nesses cinco séculos de nossa história, você vai ver que, já na fundação da colônia, veio a balcanização, a segregação territorial e econômica do pais. Depois, na Independência, esse processo se agravou, ao se manter a escravidão.

Em que estágio nós estamos?

Mir -
Agora o que nós temos é um conflito distributivista que é a herança insepulta desses cinco séculos. Trata-se de uma heranca que tem que ser resolvida cedo ou tarde. Nós vamos resolver os cinco seculos em cinco anos? Em dez anos? Não, mas nós temos que resolver. E impossível você manter o país com 90 milhões de pobres e miseráveis. É impossível você manter eternamente uma realidade social como a brasileira.

Por que o Estado é culpado pela violência?
Mir - Quando eu falo que o Estado é a matriz da violência, quero dizer que em nenhum momento, em todos os cinco séculos de história, o Estado brasileiro funcionou como vetor pacificador, como vetor civilizatório ou como plataforma civilizatória. O Estado nunca teve como proposta a pacificação do país. A pergunta que tem que ser feita é a seguinte: depois de cinco séculos, o país está mais moderno e mais complexo, houve melhorias industriais e comerciais. Então por que aumentou o número de homicídios? A década de 1990 foi a mais violenta de nossa história. Morreram violentamente no país 2 milhões de pessoas em dez anos.

Qual a sua hipótese?

Mir -
Mais uma vez, não quiseram distribuir o bolo.

A sociedade não tem um pouco de culpa? Por que só o Estado?

Mir -
Quem é o detentor do monopólio legítimo da violência? É o Estado. Quando uma pessoa é assassinada, essa arma foi fabricada e foi vendida. Fala-se sempre que a sociedade tem a sua parcela de culpa. Mas eu faço uma pergunta: você usa arma? Você atropela crianças? Você tem como objetivo na vida em algum momento matar alguém? O Estado tem essa preocupação em que as pessoas não se matem? A primeira coisa que tem que resolver nesse país é colocar o sistema de segurança pública (as polícias rodoviária, civil, militar, federal) a serviço da sociedade. A polícia, no Brasil, serve para defender o aparelho burocrático e o aparelho político do Estado, não para defender a população.

Como se pode mudar isso?

Mir -
O problema do Estado é de quem ele está a serviço. Se ele está a serviço da população brasileira, da maioria, então nós somos um bando de animais selvagens que estamos nos matando. O que explica, por exemplo, que o Estado recomende às pessoas que não parem nos semáforos, que andem com os vidros trancados. Se você reparar bem na geografia das cidades brasileiras, as casas viraram miniprisões. Nós não temos mais convivência urbana nas cidades médias e nas capitais brasileiras.

Sem falar nas favelas, não é?

Mir -
As favelas se tornaram campos de concentração, ali não tem tempo, ali não tem vida, não tem perspectiva de vida, não tem saúde, não tem educação, não tem nada. Ali tem um cerco bélico e militar. Se sair leva tiro.

Qual é a saída para isso?

Mir -
Em primeiro lugar, é preciso desarmar a polícia contra a população. A polícia tem que parar de atirar e tratar a população como se todos fossem bandidos, todos marginais. Eu gostaria que a polícia seguisse o seguinte preceito: você sabe o que é um bom hospital? O bom hospital é um hospital vazio, porque isso quer dizer que as pessoas estão vivendo bem. Um hospital cheio é prova de que o sistema de saúde está fracassando. Então, uma polícia que está atirando muito e matando muito não é uma boa polícia. Depois, temos que efetivamente dar acesso à Justiça às populações marginalizadas desse país. A Justiça do país serve a no máximo 10% da população. O Estado tem que assumir o seu papel de agente civilizador e pacificador.

E a questão econômica?

Mir -
O nosso problema básico, há cinco séculos, é o seguinte: vamos ou não vamos distribuir o bolo? Fala-se de tudo: planos econômicos, estabilidade fiscal, custo-Brasil... Mas entra governo e sai governo e ninguém apresenta um projeto de redistribuição da renda. Você já viu uma proposta dessas? O que existe são as bolsas de esmolas. Tem bolsa escola, família, cachorro, lanchonete, ônibus. Mas projeto de redistribuição de renda é você pegar esses 50%, a metade da riqueza nacional, que está na mão praticamente de 5% da população brasileira, e começar a redistribuir isso. Redistribuir como? Em forma de educação, saúde, habitação. Isso exigiria um novo estado, a radicalização da democracia.

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