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Conhecer por dentro a militarizada e faminta Coréia do Norte não é uma tarefa fácil para ninguém. Nem mesmo para os mais experientes jornalistas com atuação internacional. Mas foi esse desafio que o jornalista brasileiro Marcelo Abreu decidiu enfrentar quando partiu rumo a Pyongyang com o objetivo de registrar suas impressões do último regime genuinamente comunista do planeta, aquele que vem desafiando a comunidade internacional com seu programa de produção e exportação de armas nucleares. É esta viagem que Marcelo Abreu conta no livro "Viva o Grande Líder - um repórter brasileiro na Coréia do Norte," lançado pela Geração Editorial. Nesta entrevista, Marcelo Abreu fala do trabalho jornalístico que resultou no livro e da misteriosa Coréia do Norte.
Como você interpreta a atual situação tensa entre a Coréia do Norte e os Estados Unidos, quando se volta a falar até na possibilidade de conflito militar?
Marcelo Abreu - Esta situação vinha se configurando desde a posse do presidente George W. Bush no começo de 2001, quando as negociações entre Estados Unidos e Coréia do Norte foram interrompidas pelos americanos para um período de 'reavaliação'. Essas negociações envolviam, durante o governo Clinton, temas como a assinatura de um acordo de paz - tecnicamente os dois países ainda estão em guerra, desde a época da Guerra da Coréia (1950-1953) - ajuda humanitária, inspeções do programa nuclear coreano, entre outros itens polêmicos. Claro que os atentados de 11 de setembro e a posterior afirmação de Bush, incluindo a Coréia do Norte no 'eixo do mal', agravaram as coisas e levaram o regime comunista a uma posição de radicalização perigosa.
Por que o regime da Coréia do Norte é considerado, por muitos analistas, como até mais perigoso do que o do Iraque?
Marcelo Abreu - Por causa da situação geopolítica da Ásia. O país é vizinho da Coréia do Sul e do Japão, dois países ricos, superpopulosos e tradicionais aliados dos norte-americanos. Tem também fronteiras com a poderosa China e até com a Rússia. Isto significa que um ataque ao regime comunista provocaria uma retaliação desastrosa contra os vizinhos e contra os 37 mil soldados norte-americanos baseados na Coréia do Sul. Uma desestabilização na Coréia do Norte não interessa a ninguém. Mesmo o final do regime comunista, se acontecesse bruscamente, seria um fardo pesado demais para os coreanos do sul, que teriam que arcar com uma reunificação às pressas, a um custo incalculável.
Quem é o "Grande Líder" do título de seu livro?
Marcelo Abreu - O Grande Líder é, primeiramente, Kim Il Sung, o homem que ficou no poder na Coréia do Norte de 1945 - no final da Segunda Guerra - até 1994, isto é, 49 anos, um recorde mundial. Ele instituiu em torno de si o maior culto à personalidade de que se tem notícia no planeta. Maior mesmo do que o culto a Stalin nos anos 40. Nada na Coréia do Norte acontece sem que seja invocado o nome de Kim Il Sung, considerado pelo regime como uma espécie de Deus. Kim Il Sung foi sucedido pelo seu filho Kim Jong Il - o chamado Líder Querido - que segue na mesma linha de culto à personalidade, aliando a isso um certo gosto pela excentricidade que vai da aparência pessoal até a preferências gastronômicas. Recentemente, Kim Jong Il também passou a usar o título de Grande Líder.
Como surgiu a idéia de viajar a Coréia do Norte?
Marcelo Abreu - Quando em meados dos anos 90 ficou claro que o regime comunista não cairia rapidamente em Cuba e na Coréia - como havia sido previsto logo após o fim da URSS - eu comecei a planejar uma visita ao país de Kim Jong Il. O regime coreano, em vez de desmoronar, tornou-se ainda mais fechado e isolado do resto do mundo, desafiando todas as previsões. A viagem levou anos para se realizar porque as dificuldades para entrar no país foram muitas. Mas as informações colhidas lá e apresentadas no livro agora se tornaram muito importantes para que se entenda a importância e o desafio que esse regime representa para a comunidade internacional.
A Coréia do Norte é conhecida como um país que não aceita jornalistas estrangeiros. Como é que você conseguiu entrar?
Marcelo Abreu - Não entrei oficialmente como jornalista. Seria uma tarefa quase impossível. Para se ter uma idéia, em junho de 2000, cerca de 600 correspondentes internacionais pediram para entrar no país para cobrir a primeira reunião de cúpula entre o líder norte-coreano e o presidente da Coréia do Sul. Nenhum deles conseguiu. A Coréia do Norte sempre teve uma postura de desprezo pelas relações internacionais, coisa que vem mudando lentamente em alguns aspectos mas não no relacionamento com a imprensa. Pyongyang deve ser a única capital do mundo onde não há um só correspondente estrangeiro. Entrei lá como funcionário de uma organização de ajuda humanitária numa complicada negociação que envolveu contatos em vários países.
Você pode circular livremente lá dentro do país?
Marcelo Abreu - Ninguém circula livremente na Coréia do Norte. Nem mesmo os agentes do governo, que são diariamente acompanhados por outros agentes do governo, para evitar qualquer tipo de dissidência. O controle do regime sobre população é total. Até as entradas da capital Pyongyang são permanentemente vigiadas para evitar deslocamentos internos dos coreanos. Mas apesar de tudo, tive mais liberdade de movimento do que se tivesse entrado como jornalista. Pude andar sozinho algumas vezes e falar com pessoas. Essa pressão constante em cima do visitante é uma das coisas mais interessantes entre as que eu conto no livro.
"Viva o Grande Líder" é uma reportagem escrita em primeira pessoa sobre um mundo sobre o qual se tinha muito pouca informação. Como você definiria esse tipo de narrativa?
Marcelo Abreu - É o jornalismo escrito com o envolvimento do repórter, um texto no qual, para que haja uma compreensão total da história, o autor não deve ficar de fora. Neste caso, eu uso a minha viagem como um fio condutor para levar o leitor através do mundo quase fantasioso da Coréia do Norte, o país mais dogmático do mundo, onde a população vive cotidianamente prestando reverência aos líderes políticos enquanto parte do povo morre de fome e enfrenta sérias violações aos direitos humanos. O cotidiano na Coréia parece até ser fruto de uma espécie de delírio.
Como definir um país tão estranho como a Coréia do Norte?
Marcelo Abreu - Gosto muito de uma definição que ouvi de um norte-coreano durante a minha visita ao país, definição que, evidentemente, reflete a visão oficial do sistema. Ele me disse que os norte-coreanos se identificam com a imagem de um porco-espinho, animal relativamente pequeno mas que torna-se muito feroz quando provocado.