Quinta, 20 de Novembro de 2008
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ENTREVISTA
Celso Lungaretti

O que é, afinal, o “Náufrago da Utopia”? Um livro de memórias? Uma reconstituição histórica? Um tributo aos combatentes contra a ditadura?

Basicamente, é a história real de jovens secundaristas passando pelo movimento estudantil e pela luta armada: eu e meus amigos. Agitamos as escolas paulistanas em 1968 e lutamos na guerrilha de 1969 em diante, até acabarmos quase todos massacrados: Eremias Delizoicov e Gerson Theodoro de Oliveira, assassinados pela repressão; Roberto Macarini, atirando-se do alto do Viaduto do Chá (SP) por não suportar mais os maus tratos; Massafumi Yoshinaga, enlouquecendo e se enforcando; eu, Diego Perez Hellin, Gílson Theodoro de Oliveira, Manuel Henrique Ferreira, Edmauro Gopfert e Marcos Vinícius Fernandes dos Santos, presos e torturados.

Já houve projetos semelhantes. Quais as novidades deste?

A principal é lançar novas luzes sobre uma prática adotada pela Inteligência das Forças Armadas a partir de 1970: levar militantes da guerrilha para falarem à imprensa e se apresentarem na TV, renegando sua participação na luta armada. Houve dezenas de “arrependidos” e a atitude da esquerda foi repudiá-los em bloco, sem levar conta as especificidades de cada episódio nem o fato de que a maioria deles jamais deveria ter assumido as responsabilidades que assumiu naqueles partidos e organizações.

Como assim?

E que os protagonistas de boa parte dos “arrependimentos”, inclusive os de maior repercussão, foram secundaristas que, em circunstâncias normais, teriam demorado uns cinco anos para atingirem aquele grau de militância. Mas, como a esquerda armada estava perdendo muitos quadros e precisando repô-los rapidamente, afrouxou os critérios de admissão e mesmo de treinamento. Eu e os sete integrantes do meu grupo de secundaristas da zona Leste paulistana, ao ingressarmos na Vanguarda Popular Revolucionária do ex-capitão Carlos Lamarca, tivemos como única preparação militar uma aula elementar de tiro, gastando uma caixa de 50 balas cada um. Logo em seguida, os sete foram escalados para a expropriação simultânea de dois bancos – uma ação em que houve tiroteio e morreu um policial. Eu também deveria estar lá, mas, na véspera, fui designado para outra função.

Isso justifica os “arrependimentos”?

De certa forma, cada um de nós teve, em algum momento, a sensação de estar servindo como bucha de canhão. E o que é pior, numa guerra que já estava perdida. Então, nossa moral ficou muito abalada, ainda mais ao vermos nossos companheiros sendo mortos. Eu conhecia o Eremias desde o primário; depois que ele morreu desfigurado, com 35 balas no corpo, nunca mais fui o mesmo. Passei do entusiasmo juvenil para a consciência da tragédia de um momento para outro.

E as especificidades a que você se referiu, quais foram?

É que, dentro desse clima de desânimo e percepção da iminência da derrota, cada um reagiu de uma maneira. O Marcos Vinícius, o Gilson Theodoro e outros três companheiros que estavam no Presídio Tiradentes decidiram se posicionar contra a luta armada, sob a alegação de que só servia para radicalizar a ditadura. Eles não estavam mais sendo torturados, então agiram assim por convicção ou calculismo. Foram eles que fizeram o primeiro “arrependimento”, dando uma entrevista coletiva à imprensa.

O segundo foi o Massafumi, não é?

Sim, e aí já existe uma mudança marcante. O Massa era um jovem nissei simpático e extrovertido, que se sentiu como peixe fora d’água na luta armada, convivendo com pessoas que só falavam de assuntos militares, sem calor humano. Estive com ele, o Lamarca e o Yoshitane Fujimori numa área de treinamento guerrilheiro em Registro (SP). O Massa se queixava muito de que virara um “bandido”, vivendo clandestino, sem poder confraternizar com “as massas”. Finalmente, quando aquela área foi desativada, ele não quis ir para a seguinte. Aproveitou a chance para desligar-se da VPR.

E por que se entregou à polícia?

Porque ficou sem meios de subsistência. Eu soube que ele trabalhou na lavoura, depois andou perambulando na Capital como vagabundo, chegou a dormir em barracas de feirantes no Mercado Municipal. Para piorar, a imprensa o apontava erroneamente como o famoso “japonês da metralha” dos assaltos a banco da VPR, então o Massa era procuradíssimo. Finalmente, em desespero de causa, mandou recado ao Marcos Vinícius, seu velho guru, perguntando o que deveria fazer. O Marcos, de dentro da prisão, aconselhou-o a entregar-se à repressão, com a garantia de que não seria torturado nem teria de delatar ninguém. O Massafumi aceitou o conselho, o trato foi cumprido de parte a parte, mas ele não agüentou a rejeição da comunidade. Seis anos depois, cometeu suicídio.

Aí veio o seu caso...

Como o Massa foi mostrado na TV e aquilo repercutiu muito, um tenente da Polícia do Exército da Vila Militar, tido como um dos 10 piores torturadores daquela época, resolveu fabricar um novo “arrependimento”, de forma a reforçar o impacto obtido com o Massa. Eu estava preso há mais de dois meses, sempre incomunicável e sob torturas variáveis. Naquele momento, tinham sido intensificadas de novo, estavam com muita raiva de mim porque conseguira esconder informações importantes. Um dia depois que me estouraram o tímpano, o tenente Ailton Joaquim me obrigou a escrever uma carta de renúncia aos ideais, sendo espancado e ouvindo os gritos de uma companheira que recebia choques elétricos na sala ao lado. Depois, quando me levaram de madrugada à TV Globo no Jardim Botânico (RJ), avisaram: ou falava o que eles queriam ouvir, ou seria torturado, morto e jogado “debaixo da ponte”. Eu não decidi nada daquilo, só cheguei ao limite da minha resistência. Nunca me considerei “arrependido” de nada.

E por que você não esclareceu isso na época?

Estive um ano preso. Quando saí, fiquei horrorizado com a imagem que tinham de nós. Éramos os vilãos, os responsáveis pela derrota da guerrilha. E a VPR, ainda por cima, havia acusado falsamente a mim e ao Massa de termos sido os delatores da segunda área de treinamento em Registro, que não conhecíamos nem sabíamos ser próxima da primeira (pensávamos que fosse bem longe, lá pelo Paraná). Então, por meus próprios meios, eu não tinha como fazer com que a imprensa noticiasse minha versão, ainda mais em tempo de censura. A esquerda me ofereceu tribuna e proteção, desde que fosse fazer autocrítica pública, como um penitente. Eu me considerava massacrado pela repressão e traído pela VPR, então não podia aceitar essa imposição. Mas, quando a imprensa me procurou espontaneamente – a IstoÉ lá por 1979, depois a Veja e o Zero Hora –, sempre contei a verdade: tudo aquilo foi uma farsa da qual participei sob extrema coerção. Antes de me levarem à TV, chegaram a tirar uma foto minha para distribuírem à imprensa, depois tiveram de refazer porque se via um filete de sangue escorrendo do meu ouvido...

Então você só veio a fazer isso com o livro...

Há muito tempo tinha esse projeto na cabeça, mas não conseguia viabilizar. Aí, em 2004, tive de travar uma luta pública para que meu caso fosse finalmente julgado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, que vinha aplicando critérios os mais duvidosos, em detrimento daqueles que não éramos celebridades, nem sindicalistas ou amigos da corte palaciana. No curso dessa luta, as circunstâncias do meu “arrependimento” vieram à baila e foram geralmente vistas com outros olhos. A derrota ficou para trás e as pessoas não precisam mais de bodes expiatórios para levarem a culpa de um fracasso que, afinal, não dependeu de ninguém em particular. A luta é que era desigual; o poder de fogo do inimigo, imensamente maior do que o nosso. Agora é mais fácil as pessoas aceitarem isso. O próprio relator, quando meu processo afinal entrou em pauta, reconheceu que eu havia sido um dos militantes mais atingidos pelo arbítrio ditatorial. Simultaneamente, encontrei na Internet um relatório secreto militar que provava não ter sido eu (nem o Massa) o responsável pelo cerco que Lamarca sofreu em Registro. O Jacob Gorender, com toda sua autoridade de historiador sério e militante exemplar, escreveu carta atestando minha inocência. Então, o fato de haver esclarecido em 2004 episódios polêmicos de 1970 tornou mais interessante o que antes parecia estar sendo visto apenas como uma história antiga. Estou torcendo para que a sensibilidade da Geração Editorial, que publicou meu livro, tenha sido boa...

Você optou pela narrativa no presente, utilizando recursos literários, como se fosse ficção e não História. Por quê?

Quando comecei a minha luta contra a preterição que estava sofrendo em Brasília, em 2003, fui entrevistado durante uma hora num programa para jovens da AllTV. Os produtores consideravam o assunto importante, mas sem grande apelo para seu público. Foram surpreendidos com uma participação enorme, um recorde de e-mails. Refleti sobre isso, sobre o sucesso de filmes como “Carandiru” e “Olga”, com platéias lotadas de jovens. Cheguei à conclusão de que, ao contrário dos filhos do primeiro momento da globalização, na década passada, os jovens de hoje não estão interessados apenas na carreira. Querem informações, estão curiosos sobre o passado. Então, decidi fazer o “Náufrago” para eles.

Ou seja...

Mostrar como era ser jovem naquele tempo, tudo aquilo que acontecia ao nosso redor e a forma como reagíamos, a consciência que a gente tinha do que estava fazendo. Já vi muita coisa falsa sobre esse período, maniqueísta, com heróis perfeitos de um lado e vilãos horrorosos do outro. Eu sempre sonhei com algo diferente, mostrando os combatentes como seres humanos, com seus grandes momentos e também suas vaciladas, sua fragilidade. Sabíamos que estávamos enfrentando um inimigo terrível, tínhamos medo, acordávamos sobressaltados à noite, sentíamo-nos solitários e infelizes. Nem sempre fazíamos a melhor opção e os erros custavam caro. A responsabilidade pela vida e pela integridade física dos companheiros era um peso imenso que carregávamos. Tudo isso teria de ser mostrado um dia. Eu tentei.

Você considera imparcial o tratamento dado aos grandes nomes desse passado?

Sim, minha opção era mostrar como nós os víamos então e não como são vistos agora. Mesmo o Lamarca, de quem tive motivos de sobra para guardar mágoas pessoais, é apresentado como um homem que assumiu uma missão praticamente impossível e tudo fez para realizar seu sonho. Em termos de bravura e espírito de sacrifício, foi inigualável. Mas, seus erros acompanham a magnitude de tudo a que ele se propôs: foram imensos. Tento equilibrar os pratos da balança. Mas, a visão que lanço sobre ele é a de um revolucionário que queria que ele tivesse sido um revolucionário melhor do que foi, e não as críticas que os fascistas e os militares ressentidos lhe fazem.

Por que dá tanto destaque ao período de movimento estudantil, quando você e seus companheiros eram mais coadjuvantes do que protagonistas?

Por dois motivos. Em primeiro lugar, porque direcionei o “Náufrago” mais para os jovens, então quis que eles se identificassem conosco antes de entrar no período mais trágico. As passeatas, greves em escolas, assembléias estudantis são mais próximas do universo deles. Também pesaram motivos sentimentais. Esse foi o período bonito, aventureiro, em que descobríamos o mundo juntos e éramos felizes. Nas minhas lembranças, 1968 sempre aparece ensolarado; 1969, quando estávamos na luta armada, nublado e cinzento. A cada dia vinha uma má notícia, algum conhecido que era preso, ferido, morto. Quem sobrevivia seis meses na guerrilha já começava a ser visto como veterano. Era uma barra pesadíssima. Tive de reconstituir tudo isso por obrigação, porque era parte importantíssima da minha História. Mas, as lembranças em que remexia e as informações novas que eu descobria me tiravam o sono à noite.

As duas primeiras partes do livro são narradas na 3ª pessoa. Na última, você assume a narração. Por quê?

A primeira parte, que representa uns 70% do livro, é praticamente um painel do movimento estudantil e da luta armada, tendo como fio condutor o meu grupo de secundaristas. Ao mostrar o que fazíamos, víamos e ficávamos sabendo, vou encaixando o que houve de mais importante naquele período: acontecimentos e personagens. Então, não me pareceu apropriado colocar-me como protagonista. Realmente, não o era. Afora isso, há coisas que até hoje não me sinto à vontade para narrar na primeira pessoa, como as torturas. Ao mostrá-las como tendo acontecido ao personagem “Júlio” (meu nome de militante), de certa forma superei o constrangimento.

Na segunda parte não há torturas, mas você aparece como “André”...

Nesse período intermediário, em que eu tentava curar minhas feridas, não era nem de longe o que sou agora. Estava traumatizado e intimidado, embora começasse a reagir. Meu grande momento nessa fase foi quando consegui que um ministro interviesse para salvar quatro militantes em greve de fome. Mas, em outras coisas, fui tímido demais. Então, o jornalista que usava o pseudônimo de “André” para driblar a censura é bem diferente do Celso que lutou de peito aberto em 2004. Achei que fazia mais sentido assumir-me como autor do relato só a partir do momento em que retomei o controle total da minha vida, disposto a lutar até o fim para esclarecer os episódios do passado, ser respeitado no presente e deixar um nome de que meus descendentes pudessem se orgulhar no futuro.

Você nunca havia falado sobre o Macarini. O que o levou a relatar algo que parece ser tão doloroso?

Desde 1970 eu me sentia injustiçado. Nos piores momentos, sempre acreditei que um dia teria a oportunidade de mostrar toda a verdade. Ficava me lembrando de “A Hora e A Vez de Augusto Matraga”, sonhando com o dia em que as pessoas estariam abertas para escutarem a minha versão sem preconceitos. Essa chance surgiu em 2005. Então, quis colocar nesse livro tudo o que houve, até aquilo que pudesse me ser desfavorável. De certa forma, libertei-me de uma vez do peso desse passado. Quero realizar outras coisas no resto da minha vida, em vez de ficar esclarecendo episódios antigos. Mas, sempre fazendo tudo que estiver ao meu alcance para que haja uma grande transformação social. O mundo sob o capitalismo globalizado virou um pesadelo. A humanidade precisa acordar.

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