O que é, afinal, o
“Náufrago da Utopia”? Um livro
de memórias? Uma reconstituição
histórica? Um tributo aos combatentes contra
a ditadura?
Basicamente, é a história
real de jovens secundaristas passando pelo movimento
estudantil e pela luta armada: eu e meus amigos.
Agitamos as escolas paulistanas em 1968 e lutamos
na guerrilha de 1969 em diante, até acabarmos
quase todos massacrados: Eremias Delizoicov e Gerson
Theodoro de Oliveira, assassinados pela repressão;
Roberto Macarini, atirando-se do alto do Viaduto
do Chá (SP) por não suportar mais
os maus tratos; Massafumi Yoshinaga, enlouquecendo
e se enforcando; eu, Diego Perez Hellin, Gílson
Theodoro de Oliveira, Manuel Henrique Ferreira,
Edmauro Gopfert e Marcos Vinícius Fernandes
dos Santos, presos e torturados.
Já houve projetos
semelhantes. Quais as novidades deste?
A principal é lançar
novas luzes sobre uma prática adotada pela
Inteligência das Forças Armadas a partir
de 1970: levar militantes da guerrilha para falarem
à imprensa e se apresentarem na TV, renegando
sua participação na luta armada. Houve
dezenas de “arrependidos” e a atitude
da esquerda foi repudiá-los em bloco, sem
levar conta as especificidades de cada episódio
nem o fato de que a maioria deles jamais deveria
ter assumido as responsabilidades que assumiu naqueles
partidos e organizações.
Como assim?
E que os protagonistas de boa parte
dos “arrependimentos”, inclusive os
de maior repercussão, foram secundaristas
que, em circunstâncias normais, teriam demorado
uns cinco anos para atingirem aquele grau de militância.
Mas, como a esquerda armada estava perdendo muitos
quadros e precisando repô-los rapidamente,
afrouxou os critérios de admissão
e mesmo de treinamento. Eu e os sete integrantes
do meu grupo de secundaristas da zona Leste paulistana,
ao ingressarmos na Vanguarda Popular Revolucionária
do ex-capitão Carlos Lamarca, tivemos como
única preparação militar uma
aula elementar de tiro, gastando uma caixa de 50
balas cada um. Logo em seguida, os sete foram escalados
para a expropriação simultânea
de dois bancos – uma ação em
que houve tiroteio e morreu um policial. Eu também
deveria estar lá, mas, na véspera,
fui designado para outra função.
Isso justifica os “arrependimentos”?
De certa forma, cada um de nós
teve, em algum momento, a sensação
de estar servindo como bucha de canhão. E
o que é pior, numa guerra que já estava
perdida. Então, nossa moral ficou muito abalada,
ainda mais ao vermos nossos companheiros sendo mortos.
Eu conhecia o Eremias desde o primário; depois
que ele morreu desfigurado, com 35 balas no corpo,
nunca mais fui o mesmo. Passei do entusiasmo juvenil
para a consciência da tragédia de um
momento para outro.
E as especificidades a que
você se referiu, quais foram?
É que, dentro desse clima
de desânimo e percepção da iminência
da derrota, cada um reagiu de uma maneira. O Marcos
Vinícius, o Gilson Theodoro e outros três
companheiros que estavam no Presídio Tiradentes
decidiram se posicionar contra a luta armada, sob
a alegação de que só servia
para radicalizar a ditadura. Eles não estavam
mais sendo torturados, então agiram assim
por convicção ou calculismo. Foram
eles que fizeram o primeiro “arrependimento”,
dando uma entrevista coletiva à imprensa.
O segundo foi o Massafumi,
não é?
Sim, e aí já existe
uma mudança marcante. O Massa era um jovem
nissei simpático e extrovertido, que se sentiu
como peixe fora d’água na luta armada,
convivendo com pessoas que só falavam de
assuntos militares, sem calor humano. Estive com
ele, o Lamarca e o Yoshitane Fujimori numa área
de treinamento guerrilheiro em Registro (SP). O
Massa se queixava muito de que virara um “bandido”,
vivendo clandestino, sem poder confraternizar com
“as massas”. Finalmente, quando aquela
área foi desativada, ele não quis
ir para a seguinte. Aproveitou a chance para desligar-se
da VPR.
E por que se entregou à
polícia?
Porque ficou sem meios de subsistência.
Eu soube que ele trabalhou na lavoura, depois andou
perambulando na Capital como vagabundo, chegou a
dormir em barracas de feirantes no Mercado Municipal.
Para piorar, a imprensa o apontava erroneamente
como o famoso “japonês da metralha”
dos assaltos a banco da VPR, então o Massa
era procuradíssimo. Finalmente, em desespero
de causa, mandou recado ao Marcos Vinícius,
seu velho guru, perguntando o que deveria fazer.
O Marcos, de dentro da prisão, aconselhou-o
a entregar-se à repressão, com a garantia
de que não seria torturado nem teria de delatar
ninguém. O Massafumi aceitou o conselho,
o trato foi cumprido de parte a parte, mas ele não
agüentou a rejeição da comunidade.
Seis anos depois, cometeu suicídio.
Aí veio o seu caso...
Como o Massa foi mostrado na TV e
aquilo repercutiu muito, um tenente da Polícia
do Exército da Vila Militar, tido como um
dos 10 piores torturadores daquela época,
resolveu fabricar um novo “arrependimento”,
de forma a reforçar o impacto obtido com
o Massa. Eu estava preso há mais de dois
meses, sempre incomunicável e sob torturas
variáveis. Naquele momento, tinham sido intensificadas
de novo, estavam com muita raiva de mim porque conseguira
esconder informações importantes.
Um dia depois que me estouraram o tímpano,
o tenente Ailton Joaquim me obrigou a escrever uma
carta de renúncia aos ideais, sendo espancado
e ouvindo os gritos de uma companheira que recebia
choques elétricos na sala ao lado. Depois,
quando me levaram de madrugada à TV Globo
no Jardim Botânico (RJ), avisaram: ou falava
o que eles queriam ouvir, ou seria torturado, morto
e jogado “debaixo da ponte”. Eu não
decidi nada daquilo, só cheguei ao limite
da minha resistência. Nunca me considerei
“arrependido” de nada.
E por que você não
esclareceu isso na época?
Estive um ano preso. Quando saí,
fiquei horrorizado com a imagem que tinham de nós.
Éramos os vilãos, os responsáveis
pela derrota da guerrilha. E a VPR, ainda por cima,
havia acusado falsamente a mim e ao Massa de termos
sido os delatores da segunda área de treinamento
em Registro, que não conhecíamos nem
sabíamos ser próxima da primeira (pensávamos
que fosse bem longe, lá pelo Paraná).
Então, por meus próprios meios, eu
não tinha como fazer com que a imprensa noticiasse
minha versão, ainda mais em tempo de censura.
A esquerda me ofereceu tribuna e proteção,
desde que fosse fazer autocrítica pública,
como um penitente. Eu me considerava massacrado
pela repressão e traído pela VPR,
então não podia aceitar essa imposição.
Mas, quando a imprensa me procurou espontaneamente
– a IstoÉ lá por 1979, depois
a Veja e o Zero Hora –, sempre contei a verdade:
tudo aquilo foi uma farsa da qual participei sob
extrema coerção. Antes de me levarem
à TV, chegaram a tirar uma foto minha para
distribuírem à imprensa, depois tiveram
de refazer porque se via um filete de sangue escorrendo
do meu ouvido...
Então você só
veio a fazer isso com o livro...
Há muito tempo tinha esse
projeto na cabeça, mas não conseguia
viabilizar. Aí, em 2004, tive de travar uma
luta pública para que meu caso fosse finalmente
julgado pela Comissão de Anistia do Ministério
da Justiça, que vinha aplicando critérios
os mais duvidosos, em detrimento daqueles que não
éramos celebridades, nem sindicalistas ou
amigos da corte palaciana. No curso dessa luta,
as circunstâncias do meu “arrependimento”
vieram à baila e foram geralmente vistas
com outros olhos. A derrota ficou para trás
e as pessoas não precisam mais de bodes expiatórios
para levarem a culpa de um fracasso que, afinal,
não dependeu de ninguém em particular.
A luta é que era desigual; o poder de fogo
do inimigo, imensamente maior do que o nosso. Agora
é mais fácil as pessoas aceitarem
isso. O próprio relator, quando meu processo
afinal entrou em pauta, reconheceu que eu havia
sido um dos militantes mais atingidos pelo arbítrio
ditatorial. Simultaneamente, encontrei na Internet
um relatório secreto militar que provava
não ter sido eu (nem o Massa) o responsável
pelo cerco que Lamarca sofreu em Registro. O Jacob
Gorender, com toda sua autoridade de historiador
sério e militante exemplar, escreveu carta
atestando minha inocência. Então, o
fato de haver esclarecido em 2004 episódios
polêmicos de 1970 tornou mais interessante
o que antes parecia estar sendo visto apenas como
uma história antiga. Estou torcendo para
que a sensibilidade da Geração Editorial,
que publicou meu livro, tenha sido boa...
Você optou pela narrativa
no presente, utilizando recursos literários,
como se fosse ficção e não
História. Por quê?
Quando comecei a minha luta contra
a preterição que estava sofrendo em
Brasília, em 2003, fui entrevistado durante
uma hora num programa para jovens da AllTV. Os produtores
consideravam o assunto importante, mas sem grande
apelo para seu público. Foram surpreendidos
com uma participação enorme, um recorde
de e-mails. Refleti sobre isso, sobre o sucesso
de filmes como “Carandiru” e “Olga”,
com platéias lotadas de jovens. Cheguei à
conclusão de que, ao contrário dos
filhos do primeiro momento da globalização,
na década passada, os jovens de hoje não
estão interessados apenas na carreira. Querem
informações, estão curiosos
sobre o passado. Então, decidi fazer o “Náufrago”
para eles.
Ou seja...
Mostrar como era ser jovem naquele
tempo, tudo aquilo que acontecia ao nosso redor
e a forma como reagíamos, a consciência
que a gente tinha do que estava fazendo. Já
vi muita coisa falsa sobre esse período,
maniqueísta, com heróis perfeitos
de um lado e vilãos horrorosos do outro.
Eu sempre sonhei com algo diferente, mostrando os
combatentes como seres humanos, com seus grandes
momentos e também suas vaciladas, sua fragilidade.
Sabíamos que estávamos enfrentando
um inimigo terrível, tínhamos medo,
acordávamos sobressaltados à noite,
sentíamo-nos solitários e infelizes.
Nem sempre fazíamos a melhor opção
e os erros custavam caro. A responsabilidade pela
vida e pela integridade física dos companheiros
era um peso imenso que carregávamos. Tudo
isso teria de ser mostrado um dia. Eu tentei.
Você considera imparcial
o tratamento dado aos grandes nomes desse passado?
Sim, minha opção era
mostrar como nós os víamos então
e não como são vistos agora. Mesmo
o Lamarca, de quem tive motivos de sobra para guardar
mágoas pessoais, é apresentado como
um homem que assumiu uma missão praticamente
impossível e tudo fez para realizar seu sonho.
Em termos de bravura e espírito de sacrifício,
foi inigualável. Mas, seus erros acompanham
a magnitude de tudo a que ele se propôs: foram
imensos. Tento equilibrar os pratos da balança.
Mas, a visão que lanço sobre ele é
a de um revolucionário que queria que ele
tivesse sido um revolucionário melhor do
que foi, e não as críticas que os
fascistas e os militares ressentidos lhe fazem.
Por que dá tanto destaque
ao período de movimento estudantil, quando
você e seus companheiros eram mais coadjuvantes
do que protagonistas?
Por dois motivos. Em primeiro lugar,
porque direcionei o “Náufrago”
mais para os jovens, então quis que eles
se identificassem conosco antes de entrar no período
mais trágico. As passeatas, greves em escolas,
assembléias estudantis são mais próximas
do universo deles. Também pesaram motivos
sentimentais. Esse foi o período bonito,
aventureiro, em que descobríamos o mundo
juntos e éramos felizes. Nas minhas lembranças,
1968 sempre aparece ensolarado; 1969, quando estávamos
na luta armada, nublado e cinzento. A cada dia vinha
uma má notícia, algum conhecido que
era preso, ferido, morto. Quem sobrevivia seis meses
na guerrilha já começava a ser visto
como veterano. Era uma barra pesadíssima.
Tive de reconstituir tudo isso por obrigação,
porque era parte importantíssima da minha
História. Mas, as lembranças em que
remexia e as informações novas que
eu descobria me tiravam o sono à noite.
As duas primeiras partes
do livro são narradas na 3ª pessoa.
Na última, você assume a narração.
Por quê?
A primeira parte, que representa
uns 70% do livro, é praticamente um painel
do movimento estudantil e da luta armada, tendo
como fio condutor o meu grupo de secundaristas.
Ao mostrar o que fazíamos, víamos
e ficávamos sabendo, vou encaixando o que
houve de mais importante naquele período:
acontecimentos e personagens. Então, não
me pareceu apropriado colocar-me como protagonista.
Realmente, não o era. Afora isso, há
coisas que até hoje não me sinto à
vontade para narrar na primeira pessoa, como as
torturas. Ao mostrá-las como tendo acontecido
ao personagem “Júlio” (meu nome
de militante), de certa forma superei o constrangimento.
Na segunda parte não
há torturas, mas você aparece como
“André”...
Nesse período intermediário,
em que eu tentava curar minhas feridas, não
era nem de longe o que sou agora. Estava traumatizado
e intimidado, embora começasse a reagir.
Meu grande momento nessa fase foi quando consegui
que um ministro interviesse para salvar quatro militantes
em greve de fome. Mas, em outras coisas, fui tímido
demais. Então, o jornalista que usava o pseudônimo
de “André” para driblar a censura
é bem diferente do Celso que lutou de peito
aberto em 2004. Achei que fazia mais sentido assumir-me
como autor do relato só a partir do momento
em que retomei o controle total da minha vida, disposto
a lutar até o fim para esclarecer os episódios
do passado, ser respeitado no presente e deixar
um nome de que meus descendentes pudessem se orgulhar
no futuro.
Você nunca havia falado
sobre o Macarini. O que o levou a relatar algo que
parece ser tão doloroso?
Desde 1970 eu me sentia injustiçado.
Nos piores momentos, sempre acreditei que um dia
teria a oportunidade de mostrar toda a verdade.
Ficava me lembrando de “A Hora e A Vez de
Augusto Matraga”, sonhando com o dia em que
as pessoas estariam abertas para escutarem a minha
versão sem preconceitos. Essa chance surgiu
em 2005. Então, quis colocar nesse livro
tudo o que houve, até aquilo que pudesse
me ser desfavorável. De certa forma, libertei-me
de uma vez do peso desse passado. Quero realizar
outras coisas no resto da minha vida, em vez de
ficar esclarecendo episódios antigos. Mas,
sempre fazendo tudo que estiver ao meu alcance para
que haja uma grande transformação
social. O mundo sob o capitalismo globalizado virou
um pesadelo. A humanidade precisa acordar.