Existem dois Congressos. Um é visível,
atuante, admirável. É capaz de fazer
uma nova Constituição para o país,
aprovar o impeachment de um presidente, lutar
com um dos mais eficientes instrumentos de mudança
– a palavra – contra uma ditadura
militar. É capaz de cortar na própria
carne, de tempos em tempos, expurgando suas peças
podres. É o Congresso de Ulysses Guimarães,
de Mário Covas. Mas existe outro, submerso,
invisível, dissimulado, traiçoeiro.
Vive das sobras do primeiro. Corporativista, adora
mordomias, privilégios. Luta, sim, mas
por seus próprios privilégios, por
aumentos de salário, de verba de gabinete.
Emprega parentes, afiliados políticos.
Vende voto, aluga mandato, aluga legenda, toma
dinheiro de funcionários. Troca o seu poder
de decisão em plenário por cargos
e verbas do governo federal. É o Congresso
de Severino Cavalcanti, de Ciro Nogueira, Ronivon
Santiago, Basílio Villani, Zé Gomes
da Rocha...
A sua prática é sustentada por
uma ética própria, diferente daquela
que é cobrada do cidadão comum,
dos homens de bem, parlamentares ou não.
Afinal, ninguém venderia o seu voto se
não houvesse quem o comprasse. Certa vez,
um deputado trocou seu voto por uma estrada. Depois,
o presidente da República não queria
pagar a fatura. Indignado, o deputado comentou
que, até para se fazer uma coisa que não
é correta, tem de existir ética
dos dois lados. É esse princípio
que sustenta os acordos espúrios fechados
no parlamento. A maioria dessas situações
realmente não representa uma ilegalidade.
O que está em debate é o aspecto
ético. Algo um tanto subjetivo para essa
turma.
Alguns deles se contentam com os 15 minutos de
fama, com a repercussão efêmera de
declarações exóticas. Mas
outros querem mais, buscam o poder, e pelo caminho
mais improvável. Quando alcançam,
tornam-se perigosos, porque se lambuzam do poder,
que lhes escorre pelos cantos da boca. A sensação
de força, de impunidade, se materializa
em declarações toscas, em ameaças,
ultimatos. Quando isso acontece, quem paga o preço
é a instituição, até
porque ali ninguém chega ao poder a não
ser pelo voto da maioria.
Acompanhar esse lado do Congresso foi a minha
tarefa nos últimos 15 anos. Não
foi a mais fácil, muito menos a mais agradável.
Às vezes, exigiu estômago forte,
sem falar de um pouco de coragem. Em vários
momentos, foi preciso mergulhar naquele submundo,
fazer parte dele, confundir-se com seus personagens,
ficar a poucos passos da cumplicidade. Este livro
é uma releitura de reportagens publicadas
nesse período. A idéia é
apresentar cada passo da apuração,
que em algumas vezes se estende por meses, ou
até um ano.
Há o caso de um deputado/cartola que usou
a sua verba de gabinete para contratar meio time
de futebol. Outro literalmente alugava o seu mandato
para a suplente, além de ficar com parte
dos salários de seus funcionários.
Um terceiro tentou “vender” o seu
gabinete. Eu quase comprei.
Cruzando dados das doações eleitorais
com emendas ao Orçamento da União,
identifiquei deputados que apresentavam emendas
para favorecer empresas que haviam financiado
suas campanhas. Em três reportagens, registrei
a contratação de mais de 600 parentes
de deputados. Um deles explicou assim a contratação
da mulher e da mãe: “Uma dorme comigo,
e a outra me pariu”.
Um vice-líder de Collor relatou-me como
conseguia votos contra o impeachment do seu chefe:
em troca de empréstimos do Banco do Brasil.
Na mais tensa das reportagens, fizemos um relato
sobre o tráfico de cocaína dentro
do Congresso. A partir de entrevistas feitas em
penitenciárias de Brasília e de
Goiás, apuramos que o consumo era de 15
quilos por mês. No Senado, havia um “teledrogas”.
Pela fresta de uma porta, ouvi quatro deputados
do PTB discutirem, sem meias palavras, quanto
valia o apoio do partido a Maluf. “Você,
que tem experiência nisso... quanto o PTB
tem que receber pelo apoio?”, perguntou
um deles. “Na última eleição,
o apoio foi negociado por R$ 5 milhões”,
informou o colega. Um terceiro rejeitou a pressão
para apoiar Mário Covas: “Eu já
estou num partido de merda. Não vou agora
baixar as calças”.
É bem verdade que não apenas o
Congresso é palco desse submundo da política.
Parte das reportagens relata fatos ocorridos nos
Estados, em campanhas eleitorais, em disputas
de convenções. Invariavelmente com
a participação de parlamentares.
Afinal, é lá que eles se elegem.
Há quem acredite que essa prática
política seja gerada e desenvolvida em
Brasília, para depois ser irradiada aos
Estados. Mas é possível que ela
tenha origem na base de atuação
dos deputados e senadores, nas assembléias,
nas câmaras de vereadoeticares. O que acontece
no parlamento brasileiro seria apenas um reflexo
do que ocorre nos mais longínquos rincões
do país.
Mas é possível que ela tenha origem
na base de atuação dos deputados e
senadores, nas assembléias, nas câmaras
de vereadoeticares. O que acontece no parlamento
brasileiro seria apenas um reflexo do que ocorre
nos mais longínquos rincões do país.Mas
esse é um debate para cientistas políticos.
Aqui, procuramos apenas contar histórias.
Numa delas, em conversa gravada, um governador
contou que levou R$ 60 milhões para obras
eleitorais no Estado. No mesmo ato, fechou o apoio
à reeleição de FHC. Outro
governador pagou as dívidas de campanha
com um empréstimo bancário, feito
no banco do Estado, é claro! Na luta pela
reeleição, o polêmico Orleir
Cameli conquistava votos distribuindo máquinas
de costura, bicicletas e motores de popa. Com
dinheiro público, e em praça pública.
Em Canapi, terra de Rosane Collor... Bem, lá
não deu para apurar muito. Fomos expulsos
pelos jagunços dos Malta. Também
saímos às pressas de Marabá,
onde registramos o trabalho escravo de meninos
de 8 a 14 anos, os “meninos do Brasil”.
Eram lixeiros. Para receber seus salários,
tinham que se masturbar na frente de uma secretária,
ou fazer sexo entre eles mesmos, como bichos.
Nas ruas de Porto Velho, simulamos a compra de
pasta de cocaína. A droga era vendida por
meninos nas esquinas de ruas mal iluminadas. O
senador Olavo Pires, acusado de envolvimento com
o narcotráfico pelos adversários,
quase foi eleito governador de Rondônia.
Dias antes da eleição, foi metralhado
em frente à sua empresa.
Nas terras de João Alves, o chefe dos
“anões” do Orçamento,
no sertão da Bahia, o relato de um Brasil
perdido, entregue à própria sorte.
Inesquecível a imagem de penitentes com
pedras de cinco quilos sobre a cabeça.
Eles queriam água, apenas água.
Era essa gente que estava sendo roubada pelos
“anões”.
Severino, o mais bem sucedido líder do
baixo clero, é apenas mais um personagem
dessa história triste. Homem simples, atrapalhado
com as palavras, chegou ao poder num ato de protesto
ao autoritarismo petista. No dia seguinte, passado
o porre cívico, todos perceberam a encrenca
que haviam arrumado.
Todos os fatos narrados no livro são
verídicos. Seus personagens, infelizmente,
são reais.