Sexta, 10 de Outubro de 2008
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DEPOIMENTO
LUCIO VAZ


Existem dois Congressos. Um é visível, atuante, admirável. É capaz de fazer uma nova Constituição para o país, aprovar o impeachment de um presidente, lutar com um dos mais eficientes instrumentos de mudança – a palavra – contra uma ditadura militar. É capaz de cortar na própria carne, de tempos em tempos, expurgando suas peças podres. É o Congresso de Ulysses Guimarães, de Mário Covas. Mas existe outro, submerso, invisível, dissimulado, traiçoeiro. Vive das sobras do primeiro. Corporativista, adora mordomias, privilégios. Luta, sim, mas por seus próprios privilégios, por aumentos de salário, de verba de gabinete. Emprega parentes, afiliados políticos. Vende voto, aluga mandato, aluga legenda, toma dinheiro de funcionários. Troca o seu poder de decisão em plenário por cargos e verbas do governo federal. É o Congresso de Severino Cavalcanti, de Ciro Nogueira, Ronivon Santiago, Basílio Villani, Zé Gomes da Rocha...

A sua prática é sustentada por uma ética própria, diferente daquela que é cobrada do cidadão comum, dos homens de bem, parlamentares ou não. Afinal, ninguém venderia o seu voto se não houvesse quem o comprasse. Certa vez, um deputado trocou seu voto por uma estrada. Depois, o presidente da República não queria pagar a fatura. Indignado, o deputado comentou que, até para se fazer uma coisa que não é correta, tem de existir ética dos dois lados. É esse princípio que sustenta os acordos espúrios fechados no parlamento. A maioria dessas situações realmente não representa uma ilegalidade. O que está em debate é o aspecto ético. Algo um tanto subjetivo para essa turma.

Alguns deles se contentam com os 15 minutos de fama, com a repercussão efêmera de declarações exóticas. Mas outros querem mais, buscam o poder, e pelo caminho mais improvável. Quando alcançam, tornam-se perigosos, porque se lambuzam do poder, que lhes escorre pelos cantos da boca. A sensação de força, de impunidade, se materializa em declarações toscas, em ameaças, ultimatos. Quando isso acontece, quem paga o preço é a instituição, até porque ali ninguém chega ao poder a não ser pelo voto da maioria.

Acompanhar esse lado do Congresso foi a minha tarefa nos últimos 15 anos. Não foi a mais fácil, muito menos a mais agradável. Às vezes, exigiu estômago forte, sem falar de um pouco de coragem. Em vários momentos, foi preciso mergulhar naquele submundo, fazer parte dele, confundir-se com seus personagens, ficar a poucos passos da cumplicidade. Este livro é uma releitura de reportagens publicadas nesse período. A idéia é apresentar cada passo da apuração, que em algumas vezes se estende por meses, ou até um ano.

Há o caso de um deputado/cartola que usou a sua verba de gabinete para contratar meio time de futebol. Outro literalmente alugava o seu mandato para a suplente, além de ficar com parte dos salários de seus funcionários. Um terceiro tentou “vender” o seu gabinete. Eu quase comprei.

Cruzando dados das doações eleitorais com emendas ao Orçamento da União, identifiquei deputados que apresentavam emendas para favorecer empresas que haviam financiado suas campanhas. Em três reportagens, registrei a contratação de mais de 600 parentes de deputados. Um deles explicou assim a contratação da mulher e da mãe: “Uma dorme comigo, e a outra me pariu”.

Um vice-líder de Collor relatou-me como conseguia votos contra o impeachment do seu chefe: em troca de empréstimos do Banco do Brasil. Na mais tensa das reportagens, fizemos um relato sobre o tráfico de cocaína dentro do Congresso. A partir de entrevistas feitas em penitenciárias de Brasília e de Goiás, apuramos que o consumo era de 15 quilos por mês. No Senado, havia um “teledrogas”.

Pela fresta de uma porta, ouvi quatro deputados do PTB discutirem, sem meias palavras, quanto valia o apoio do partido a Maluf. “Você, que tem experiência nisso... quanto o PTB tem que receber pelo apoio?”, perguntou um deles. “Na última eleição, o apoio foi negociado por R$ 5 milhões”, informou o colega. Um terceiro rejeitou a pressão para apoiar Mário Covas: “Eu já estou num partido de merda. Não vou agora baixar as calças”.

É bem verdade que não apenas o Congresso é palco desse submundo da política. Parte das reportagens relata fatos ocorridos nos Estados, em campanhas eleitorais, em disputas de convenções. Invariavelmente com a participação de parlamentares. Afinal, é lá que eles se elegem. Há quem acredite que essa prática política seja gerada e desenvolvida em Brasília, para depois ser irradiada aos Estados. Mas é possível que ela tenha origem na base de atuação dos deputados e senadores, nas assembléias, nas câmaras de vereadoeticares. O que acontece no parlamento brasileiro seria apenas um reflexo do que ocorre nos mais longínquos rincões do país.

Mas é possível que ela tenha origem na base de atuação dos deputados e senadores, nas assembléias, nas câmaras de vereadoeticares. O que acontece no parlamento brasileiro seria apenas um reflexo do que ocorre nos mais longínquos rincões do país.Mas esse é um debate para cientistas políticos. Aqui, procuramos apenas contar histórias.

Numa delas, em conversa gravada, um governador contou que levou R$ 60 milhões para obras eleitorais no Estado. No mesmo ato, fechou o apoio à reeleição de FHC. Outro governador pagou as dívidas de campanha com um empréstimo bancário, feito no banco do Estado, é claro! Na luta pela reeleição, o polêmico Orleir Cameli conquistava votos distribuindo máquinas de costura, bicicletas e motores de popa. Com dinheiro público, e em praça pública.

Em Canapi, terra de Rosane Collor... Bem, lá não deu para apurar muito. Fomos expulsos pelos jagunços dos Malta. Também saímos às pressas de Marabá, onde registramos o trabalho escravo de meninos de 8 a 14 anos, os “meninos do Brasil”. Eram lixeiros. Para receber seus salários, tinham que se masturbar na frente de uma secretária, ou fazer sexo entre eles mesmos, como bichos.

Nas ruas de Porto Velho, simulamos a compra de pasta de cocaína. A droga era vendida por meninos nas esquinas de ruas mal iluminadas. O senador Olavo Pires, acusado de envolvimento com o narcotráfico pelos adversários, quase foi eleito governador de Rondônia. Dias antes da eleição, foi metralhado em frente à sua empresa.

Nas terras de João Alves, o chefe dos “anões” do Orçamento, no sertão da Bahia, o relato de um Brasil perdido, entregue à própria sorte. Inesquecível a imagem de penitentes com pedras de cinco quilos sobre a cabeça. Eles queriam água, apenas água. Era essa gente que estava sendo roubada pelos “anões”.

Severino, o mais bem sucedido líder do baixo clero, é apenas mais um personagem dessa história triste. Homem simples, atrapalhado com as palavras, chegou ao poder num ato de protesto ao autoritarismo petista. No dia seguinte, passado o porre cívico, todos perceberam a encrenca que haviam arrumado.

Todos os fatos narrados no livro são verídicos. Seus personagens, infelizmente, são reais.

Capitu mandou flores
Rinaldo de Fernandes
Dez dos melhores contos do maior escritor brasileiro e 30 outros, de grandes autores, baseados neles. Um exercício de criatividade e estilo. E 5 ensaios.
Sombras do Passado
Neil Jordan
Nina foi assassinada. Sua sombra acompanha o que ocorre depois. Ela sabe quem a matou, mas não por quê. Um romance do cineasta Neil Jordan.
Como Viver Eternamente
Sally Nicholls
Um menino de 11 anos sabe que vai morrer e escreve sobre a alegria de viver. Comovente e encantador, sucesso em 19 países.
Morrer em Praga
J.B. Gelpi e Jeanette Rozsas
Baseado em história real, misto de Romeu e Julieta e Lolita, Morrer em Praga narra a chocante história de um amor enlouquecido.
Hilda Furacão
Roberto Drummond
Geração relança em grande estilo o mais popular romance de Roberto Drummond, que virou minissérie da Globo, com Ana Paula Arósio.
Lobo Lalau
Luiz Fernando Emediato
Lalau, um lobo bom, sofre com as ações de três porquinhos maus. Luiz F. Emediato inverte a história, numa engraçada fábula moral
Mulheres sobre rodas

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Conspirações
Edson Aran
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O Pulo do
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Márcio Cotrim revela a origem e o significado de mais 280 palavras e expressões populares, com divertidos comentários do autor e desenhos de Osvaldo Pavanelli.