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"Admirável Mundo Atual" faz leitura do mundo globalizado a partir de suas palavras

Mais uma obra do ex-governador do Distrito Federal, ex-ministro da educação e professor de Economia da Universidade de Brasília (UnB), Cristovam Buarque, chega ao mercado editorial brasileiro. O livro chama-se "Admirável Mundo Atual", e o seu sub-título esclarece sobre o que se trata: "Dicionário pessoal dos horrores e esperanças do mundo globalizado".

Na obra, Cristovam Buarque (re) define termos e verbetes usados costumeiramente pela sociedade contemporânea. Como ele afirma na abertura, "ler o mundo hoje é como caminhar depois de um bombardeio: o caminhante é obrigado a fazer seu próprio mapa". Com a ajuda dos seus alunos da Universidade de Brasília, Cristovam Buarque - um dos mais inquietos e criativos intelectuais brasileiros, pioneiro na concessão da Bolsa-Escola e autor de 17 livros - propõe um caminho.

Os verbetes foram escolhidos a partir de dois critérios. O primeiro deles é o puro sentimento do autor, participante direto da vida social dos nossos tempos, seja como acadêmico, seja como político ou, simplesmente, cidadão. O outro critério parte do princípio de que o mundo globalizado faz aflorar algumas palavras e caducar outras, e muitas vezes até cria novas definições. Só que na maior parte dos casos as palavras globalizadas ainda não têm um sentido bem definido. Podemos ouvi-las em discursos, em conversas com amigos. Vemos essas palavras nos noticiários de televisão e nos jornais. E, no entanto, uma análise mais apurada pode mostrar que pouco se sabe o que elas significam realmente.

Como diz Cristovam, "a modernidade cobriu a realidade com um véu de palavras que se apossaram das coisas e passaram a defini-las conforme os interesses dos modernizadores". Trata-se, portanto, de uma abordagem social. Uma leitura do mundo globalizado a partir de suas palavras, que propõem seguir o conselho de Confúcio, para quem "a ordem do mundo depende da ratificação dos nomes".

É neste contexto que aparecem verbetes como: avião, ar partado, crime informático, ongs, neoliberalismo. Muitas fazem parte do nosso dia a dia. Outras, foram criadas pelo autor.

Avião: Símbolo da modernização o avião é o meio de transporte utilizado por centenas de milhares de crianças ricas e de classe média que vão para a Disneyworld ou para programas de intercâmbio em outros países. É também a expressão usada para indicar os meninos pobres que atuam como intermediários entre traficantes e consumidores de drogas proibidas.

Ar partado: Um habitante do primeiro mundo internacional dos ricos pode viver e viajar sem respirar o ar natural do mundo dos pobres e sempre na mesma temperatura, qualquer que seja a latitude geográfica e a estação do ano. Os ricos conseguem ir e vir levando o próprio ar protegido e isolado no ambiente fechado desde sua casa, através de carro ou avião, até o seu destino: o shopping center, o aeroporto, o escritório, o consultório médico, o cinema. E não é essa a única utilização do ar condicionado. Na sociedade com apartação, o ar partado nos carros serve menos para refrescar o calor, do que para proteger os passageiros e separá-los dos habitantes da rua por onde o veículo passa.

Crime Informático: São os crimes de manipulação de dados e de informações, cometidos por governantes, políticos, economistas, marqueteiros, ao criarem um mundo virtual mentiroso para consumo da opinião pública manipulada.

Ongs: As organizações não governamentais surgiram em decorrência da falência do Estado no que diz respeito à ausência de respostas aos problemas surgidos em face dos novos valores éticos da sociedade. O divórcio entre os objetivos sociais, definidos pela ética, e as prioridades do governo, definidas pela racionalidade econômica, acarreta o surgimento de grupos e organizações não governamentais em defesa dos excluídos: a natureza, as crianças, os sem-terra, etc.

Neoliberalismo: Mais do que uma escola econômica, o neoliberalismo se afirmou como a filosofia da neocivilização, uma filosofia que serve de base para justificar e construir a apartação.


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