Existe uma poesia feminina? Florbela Espanca e Henriqueta Lisboa eram vozes femininas na literatura? Ou eram apenas vozes poéticas? Quando Flora Figueiredo - autora deste Chão de Vento - escreve, ela o faz com uma voz feminina ou apenas, como dizia Jorge Luis Borges, busca sonhos no fundo do sonho? Procura a beleza, "um som d´água ou de bronze e uma sombra que passa", como queira Eugênio de Castro? Registra suas emoções e procura, no leitor ou leitora, eco para elas?
Flora Figueiredo, elogiada por Caio Fernando Abreu, Ferreira Gullar e Antonio Alçada Baptista, entre outros, é mais que apenas uma voz feminina em nossa poesia. A paixão pela poesia começou cedo, quando sua mãe, apreciadora do gênero, declamava poemas de Guilherme de Almeida, Cecília Meireles e Paulo Bonfim. A sonoridade desses poemas conquistou o coração de Flora para sempre.
Desde seu primeiro livro, Florescência, de 1987, é uma poeta feminina, com sua voz própria. Depois vieram Calçada de Verão (1989), Amor a Céu Aberto (1992), Estações (1995) e O trem que traz a noite (2002). Flora não parou, em seu belo caminho povoado de palavras e sensações muito próprias e especiais.
Chão de Vento é o seu sexto livro de poesias e prova mais uma vez que Flora Figueiredo é assim mesmo: romântica, doce, picante, apaixonada, contestadora, cúmplice, sedutora, sensual e irreverente. Flora explica que, assim como nos livros anteriores, Chão de Vento traz o imprevisível movimento da vida. Nele, encantamentos, desapontos, perplexidades, seduções se sucedem sem programação. "São como folhas ao sabor do vento a deliciar e confundir meu chão", conta.
Ninguém precisa procurar aqui aquela poesia cerebral, seca, ou experimentalismos que alguns consideram estéreis, embora haja lugar para isso na literatura. Essa é a maravilha da democracia: nela, ao contrário do que acontecia na República de Platão, há lugar não só para os poetas, mas para todos os poetas. Assim, seus poemas almejam sempre um encontro com o leitor independentemente de idade ou sexo."É como estender a mão e alcançá-lo do outro lado do livro", explica.
O lugar de Flora é aquele lugar privilegiado dos poetas que também podem ser lidos pelas pessoas simples. Pessoas que gostam de palavras, de sons, de música. Experimente ler os poemas deste livro enquanto os ouve, declamados por ela mesma e Alberico Sobreira, com belas trilhas musicais, no CD que o acompanha. Fica mais doce. É puro encantamento.