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A longa jornada de um herói sem nome
Na trilha de Paulo Coelho, Joseph Conrad, Borges e Conan Doyle, Carlos Ribeiro traça a aventura do homem em busca do Santo Graal e de si mesmo

Paulo Coelho, debaixo do sucesso mundial e de uma saraivada de críticas, buscou na literatura persa a base para suas histórias. Carlos Ribeiro, um novo autor brasileiro, buscou na mesma fonte e em outras igualmente valiosas – como Jorge Luís Borges, Joseph Conrad e Conan Doyle – os motivos para esta fascinante versão da jornada do herói, adaptada para a era de incertezas que é este início do século XXI.

Abismo (Geração Editorial, 200 páginas, R$ 29,00) conta a aventura de um herói sem nome que, num cenário paradisíaco – o cânion do Itaimbezinho, no sul do Brasil – empreende uma jornada de encantamento em busca do Santo Graal, ou, como prefere o autor, do reencantamento. Descendo pelos despenhadeiros, o personagem busca pelo cálice sagrado, mergulha em seus medos mais profundos e vive uma experiência mística transformadora.

Uma aventura fantástica

Um jornalista em férias na região dos Aparados da Serra, no Rio Grande do Sul, desiludido das suas atividades como militante ecológico, desfruta a maior parte do tempo pescando no lago, “sozinho, entre os reflexos luminosos das nuvens e das montanhas”. Um dia, ele recebe a correspondência de um morador da região, personagem enigmático que habita uma mansão nas proximidades de um dos cânions – abismo impressionante de cerca de 400 metros de profundidade. Na carta, o homem se diz interessado por suas idéias, apresentadas em artigos, nas quais expõe concepções incomuns sobre o conceito de realidade. Impressionado com um estranho símbolo impresso na sobrecarta enviada pelo homem – a imagem de um arqueoptérix –, e que lhe suscita estranhas associações, resolve aceitar o convite para uma visita.

O contato com o homem – um professor de arqueologia e explorador, que, juntamente a sua filha, dedicara a sua vida a um objetivo incomum e surpreendente – leva-o, após muitos questionamentos e resistências interiores, a aceitar uma proposta inusitada: empreender, ele mesmo, a busca de um objeto sagrado que, segundo o professor, encontra-se num ponto específico no fundo do cânion, para onde fora levado por uma estranha comunidade gnóstica, adoradora do deus/demônio Abraxas. Pressionado pela deflagração de processos psíquicos que ameaçam tornarem-se incontroláveis, a cada vez que se recusa a partir (a “aceitar o chamado”), o herói se vê compelido a empreender a busca, numa descida solitária ao abismo.

Sonho, aventura, delírio, busca do autoconhecimento ou um gradativo, mas inexorável, mergulho na alienação, na perda da razão? Uma caminhada, lúcida e consciente, em direção a uma compreensão superior da realidade, ou uma queda na escuridão profunda de um Hades, no qual “a estranha confraria dos alienados e banidos, dos excêntricos e temerários, perderam-se, à margem da normalidade socialmente aceitável”?

Lucidez, loucura, razão, imaginação; ciência, mito, religião, magia, fantasia e utopia. Estes são os ingredientes desta fascinante novela de aventuras – uma autêntica jornada do herói, atualizada para o nosso tempo: o início de um novo milênio, no qual uma cultura agonizante precisa dar lugar ao renascimento de valores que precisam ser recuperados a partir de um novo olhar: o olhar que busca reencantar o mundo, resgatando as dimensões profundas do espírito humano.

Eis aí a linha mestra deste livro, no qual autor, personagem e leitor empreendem, juntos, a vertiginosa descida ao abysmus sem fim, onde sonhos, esperanças, anseios e temores mais profundos afloram. A aventura do herói sem nome, dessa novela, pode ser definida, em síntese, como uma jornada de liberação: da imaginação, das forças criativas do espírito tantas vezes acorrentadas ou domesticadas pelo racionalismo, pela acomodação, pelo medo do desconhecido, pelo bom-senso pequeno-burguês, que nos impedem de irmos além das Colunas de Hércules. E, sobretudo, uma investida lírica contra a coisificação e “ao domínio das mercadorias sobre os homens”, como diz Theodor Adorno.

O herói sem nome da novela representa o homem moderno, atormentado e oprimido por dúvidas e vacilações, que segue em frente movido, não mais por uma convicção e crença inabaláveis, mas pela simples impossibilidade de não poder permanecer na razão sem perdê-la, pois que não há razão sem a sua contrapartida simbólica, sem o sentimento e a intuição. Ele caminha porque não há outra alternativa. A negação da dimensão imaginativa – do sonho e da utopia seria uma espécie de aniquilação. Ou, pior: uma espécie prosaica, e por isto mais terrível, de loucura. Não a loucura dos videntes e dos profetas, mas a do pobre homem-máquina, programado, prostituído, destituído da sua grandeza. O pobre homem que falhou em cumprir o seu destino, refugo da Civilização.

Mas Abismo, atenção, não é um livro de auto-ajuda, nem tem a pretensão e o sentido de levar quem quer que seja a uma finalidade específica. A história desenvolve-se na forma de um livro de aventuras, ao mesmo tempo épica e intimista, na qual o exterior e o interior do personagem confundem-se, cada vez mais, na descida do abismo, a ponto de quase se tornarem indistintos.

Com esta estrutura de livro de aventura tradicional, modelo que lembra algumas narrativas do século 19 (de um tempo em que ainda se valorizava contar uma boa história, que prendesse a atenção do leitor da primeira à última página), Abismo envolve, entretanto, coisas mais complexas do que mostra à primeira vista. Sua filiação é, portanto, bastante diversa das histórias pré-fabricadas e de consumo que se encontram hoje nas prateleiras das livrarias dedicadas aos best-sellers e aos livros de auto-ajuda.

Se ela tem algo a ver, no sentido da busca do autoconhecimento, com a singela história persa que inspirou O alquimista, de Paulo Coelho, e com um conto de Jorge Luís Borges, tem muito mais ainda com Conan Doyle (O mundo perdido), Saint-Èxupery (Terra dos homens), Joseph Conrad (Coração das trevas) ou ainda com filmes como Apocalipse Now, Alien – o 8º Passageiro, Aguirre, a cólera dos deuses e 2001, Uma odisséia no espaço, nos quais a viagem de um homem é sempre um mergulho na sua singularidade.

Atualíssimo nos temas que aborda, tais como física quântica, substâncias que alteram o estado de consciência (peiote, khat, hoasca, soma), psicologia junguiana, ecologia, esoterismo e, sobretudo, às relações entre real/imaginário e loucura/sanidade, Abismo é, antes de qualquer coisa, um livro que se lê com prazer – seja por ser bem escrito, seja por sua atmosfera envolvente, seja pelas imagens que evoca, por seu grande potencial cinematográfico e pela simplicidade narrativa, muito longe do hermetismo tão comum a algumas vertentes da literatura contemporânea. Abismo é um livro que se lê com prazer e fascínio.

CARLOS RIBEIRO nasceu em 1958, em Salvador, Bahia. Jornalista, ficcionista e Mestre em Literatura pela Universidade Federal da Bahia, ele é autor, entre outros livros, de O visitante noturno (contos, 2000), e Caçador de ventos e melancolias: um estudo da lírica nas crônicas de Rubem Braga (ensaio, 2001). Participou das antologias de contos Oitenta (1996) e Geração 90: Manuscritos de computador (2001). Desde 1998, co-edita a revista de arte, crítica e literatura iararana. Dedicou-se durante muitos anos à divulgação científica, tendo participado de expedições à Antártida, Amazonas e diversas reservas naturais brasileiras.

Entrevista com Carlos Ribeiro

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