"Imagine um filme baseado na Metamorfose, de Kafka, com roteiro de William Burroughs e direção de David Cronemberg e você terá Cock & Bull". Com estas palavras o Sunday Times, de Londres, definiu a nova sensação literária que provocou um abalo sísmico na literatura inglesa e mundial. Will Self disse logo a que veio em sua estréia na ficção, o livro de contos The Quantity Theory of Insanity. Mas foi no ano seguinte, 1992, que Histórias para Boi Dormir - Cock & Bull (Geração Editorial, 256 pgs. R$ 28,00) arrebatou crítica e público - um feito raro.
Não é para menos. Histórias para Boi Dormir é diferente de tudo o que já se viu. São duas novelas cruzadas que resultam em um romance admirável. Em princípio, podem parecer relatos mitológicos pós-modernos, semelhantes aos da antiga Grécia, com toda sua riqueza e onde tudo pode acontecer.
Pode acontecer, por exemplo, de homens acordarem com um órgão sexual feminino entre as pernas e vice-versa. Só que, no Olimpo, esta narrativa provavelmente viria com a carga magistral da vontade dos deuses ou deusas, e o fato seria rico em significados simbólicos. No mundo de Self, os personagens estão a tal ponto distraídos que nem notam que amanheceram com mais um órgão sexual fazendo parte de seus corpos. Não há deuses nem semi-deuses.
Os protagonistas se comportam numa boa, como se fossem produtos de uma pincelada ou de uma pena surrealista. De fato, as duas novelas evocam o universo de Breton e Dalí. Mas, em oposição ao Surrealismo, a forma do texto de Self nada tem de mecânica ou ocasional.
Pelo contrário, pela sua radical originalidade, Histórias para Boi Dormir tornou-se difícil de ser descrito. A Kirkus Reviews classificou o romance como "sinistramente fascinante; pequenas novelas que perscrutam o mundo fantasmagórico da ambigüidade sexual e a ambivalência moral". E completa: "Selvagemente satírico e visceral, tão ameaçador quanto chocante."
Temos em Cock & Bull a junção mais bem acabada da língua de Shakespeare - com quem Self foi comparado pela sua habilidade na condução da narrativa - com a linguagem pop-esquizofrênica do underground. O texto pode ao mesmo tempo lembrar um trecho do bardo como as guitarras do Sex Pistols. Não é por acaso que o The New York Times apontou Will Self como "a última sensação literária da Inglaterra", afirmando que ele "possui todos estes dons que um escritor satírico pode desejar: um olho para o detalhe revelador, um ouvido para as pretensões do fraseado contemporâneo, uma habilidade para escrever uma prosa muito peculiar, que fulgura inteligência e perspicácia".
O resultado é um livro ao mesmo tempo terrível e hilariante. O leitor vai gargalhar, mas vai também sair apalpando o próprio corpo.
A Geração Editorial lançou a primeira edição de Cock & Bull em agosto de 94. Naquele ano o autor veio ao Brasil para a Bienal do Livro de São Paulo, a convite da editora. Pelo seu temperamento - sobre o qual pode-se dizer que é, no mínimo, irreverente - marcou presença na cidade, freqüentando todas as festas e esvaziando em incrível velocidade todo o tipo de garrafas alcoólicas.
Agora, a segunda edição do livro vem completamente reformulada, a partir do título, Histórias para Boi Dormir, nova capa e tradução revista por Hamilton dos Santos, que também assinou a primeira tradução, além de uma entrevista inédita, na qual Self discorre sobre sua obra e relembra sua célebre passagem pelo Brasil. Uma edição caprichada à altura do escritor celebrado por Salman Rushdie como "uma figura cult" e realizada em respeito ao leitor.
Will Self hoje em dia apresenta um programa de televisão na Inglaterra. Garante que leva uma vida mais regrada e abandonou as drogas.