ENTREVISTA EXCLUSIVA COM RINALDO DE FERNANDES, ORGANIZADOR DA ANTOLOGIA CAPITU MANDOU FLORES: CONTOS PARA MACHADO DE ASSIS NOS CEM ANOS DE SUA MORTE
Entrevista concedida a Fernanda Emediato
Como surgiu a idéia de criar a antologia Capitu mandou flores, posto que algo parecido já tinha sido executado antes, por Osman Lins?
De fato, me baseei na proposta de Osman Lins, que na década de 70 já havia organizado a coletânea de recriações Missa do Galo – variações sobre o mesmo tema. Retomei o projeto de Osman e o ampliei. Em Capitu mandou flores não apenas “Missa do Galo” é reescrito, mas ainda nove outros contos de Machado. Além dos contos de Machado, são também recriados na antologia situações/trechos do romance Dom Casmurro. Portanto, minha proposta amplia bastante a de Osman Lins – e tem, acredito, a sua originalidade, porque são muito mais autores recriando narrativas do célebre escritor e muito mais obras dele sendo reescritas.
Como foi a seleção dos autores?
Como antologista, adoto sempre um critério: reúno autores consagrados, emergentes e jovens promessas. Além disso, não dou exclusividade ao eixo Rio-São Paulo. Convido autores de outros estados, fazendo, assim, um mapeamento da ficção brasileira atual.
Como avalia o resultado e qual o seu texto preferido?
Maravilhoso. Acho que a antologia cumpre um papel muito importante de mostrar o diálogo entre autores. A literatura sempre foi intertextual, sempre houve diálogo entre obras. Contudo, às vezes este diálogo só é decifrado pelo texto crítico, pelo especialista amparado em teorias consistentes. Teorias necessárias, mas também não raro enfadonhas. No caso da antologia, o leitor comum tem a oportunidade de ver explicitamente como ocorre esse diálogo, pois ele lê o texto machadiano e em seguida vê de que modo ele foi recriado. Se foi feita uma imitação, ou uma paródia, ou apenas uma alusão ao relato original. O próprio leitor poderá, num exercício individual, escrever a sua história ou pensar como poderia reescrever o relato machadiano. Além de um exercício lúdico, até recreativo, com a literatura, as recriações também criam tensões de sentido entre o texto original e o do seu recriador. Isto é muito interessante, é um exercício intelectual dos mais instigantes. Gosto de vários contos do livro, e prefiro não citar nomes, já que na antologia há um conjunto de autores que admiro muito. E eles estão na melhor forma no livro, com um estilo depurado e com uma grande capacidade inventiva. A antologia me satisfez bastante.
Qual a obra de Machado de Assis que você leu e da qual mais gostou?
Admiro profundamente os seus contos. São geniais, especialmente “Missa do Galo”, “O Alienista” “O Enfermeiro”, “O Espelho” e “A Causa Secreta”. Impossível dizer qual o melhor. E lembro que todos eles estão publicados na íntegra no Capitu mandou flores.
Qual a maior dificuldade para fazer a seleção dos textos?
Na verdade não houve seleção de textos, mas escolha de autores. Convidei 40 escritores pelos quais tenho profunda admiração: 35 deles recriaram narrativas machadianas e 5 contribuíram com ensaios.
Indicaria este livro para ser lido em escolas? Por quê?
Certamente. Por dois motivos: primeiro para o professor mostrar como em literatura se tecem os diálogos entre autores. Como as obras podem se aproximar nos sentidos, mas como podem também gerar tensões de sentidos. Mostrar como uma história narrada de um ponto de vista pode ser narrada de outro. Como um personagem elaborado com determinada carga de valores pode ser reelaborado com outra, etc. Além disso, o professor poderá propor aos alunos exercícios de reescritura dos mais instigantes. Por exemplo, após ler as recriações do livro, propor ao aluno que crie a sua própria Capitu ou o seu próprio Bentinho. Que narre a história de “Missa do Galo” da perspectiva de personagens periféricos (por exemplo, do vizinho, que no conto machadiano só aparece no final da história). O professor e os alunos, assim, estarão lidando com a literatura como significação e recreação.
Você tem no Capitu mandou flores o premiado conto “Beleza”. Fale sobre ele.
“Beleza” obteve, em 2006, o Prêmio Nacional de Contos do Paraná, o que me deixou muito contente. Tem como epígrafe duas frases retiradas do “Alienista”. É a história de um indivíduo degradado social, econômica e moralmente, que termina roubando uma égua no subúrbio e passa – numa espécie de demência voluntária – a viver na cidade montado, e é então objeto de escárnio e zombaria da população. Termina cometendo um crime brutalmente. A professora universitária Glória Maria de Oliveira Gama – que está escrevendo uma tese de doutorado sobre as personagens femininas do meu livro de contos O perfume de Roberta – fez recentemente uma leitura muito competente desse conto. Está no site de literatura Cronópios (http://www.cronopios.com.br/).
Quantas antologias já organizou e qual é a sua preferida?
Até aqui, organizei 5 antologias: pela Geração Editorial, O Clarim e a Oração: cem anos de Os Sertões (2002), Contos Cruéis: as narrativas mais violentas da literatura brasileira contemporânea (2006) e agora Capitu mandou flores (2008). Pela Ed. Garamond (RJ), Chico Buarque do Brasil: textos sobre as canções, o teatro e a ficção de um artista brasileiro (2004) e Quartas Histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa (2006). Cada uma dessas coletâneas tem um valor muito especial para mim. Fica difícil escolher a de que mais eu gosto. Gosto de todas.
Quais são seus projetos para o futuro?
Publicarei, em outubro próximo, pela Ed. 7 Letras (RJ), o meu primeiro romance, intitulado Rita no Pomar. O posfácio é do crítico Silviano Santiago, que gosta muito desse texto. É uma história com uma personagem densa, uma paulistana que vai viver (o motivo eu não digo) numa praia paradisíaca do Nordeste, a fictícia praia do Pomar, e tem como principal interlocutor um cachorro. Uma história poética e trágica. Bom, estou preparando meu novo livro de contos, ainda sem título definido. Além de continuar produzindo ficção, penso em organizar mais antologias, pois sinto muito prazer em prepará-las.