O leitor João Maria Oliveira, um dos mais bem informados sobre os bastidores da segurança pública no Rio, participa do Blogueiro por um dia, debatendo as histórias relatadas no livro "Sangue Azul - Morte e Corrupção na PM do Rio", de Leonardo Gudel (Editora Geração Editorial) (foto acima), que assina o relato de um PM da ativa, que não é identificado. O livro de memórias de um PM envolvido em crimes e corrupção segue a linha de "Elite da Tropa" e não duvido que também vire filme. João Maria fez a resenha a meu pedido. Ele ficou de participar do debate, mas não sei dizer exatamente a hora. No blog ele frequentemente some e reaparece na caixa de comentários deste blog como uma espécie de "Zorro". Suas intervenções certamente já são monitoradas pelo serviço de inteligência da polícia, que também bebe na fonte da blogosfera e tuitosfera policial, além de, eventualmente, num ou noutro celular de jornalista. No meu só vão achar bravatas porque sou da época em que o essencial se fala entre quatro paredes, blindadas.
Os senhores da vida e da morte
João Maria Oliveira, especial para o blog Repórter de Crime
“SANGUE AZUL – Morte e corrupção na PM do Rio”, lançado há menos de três meses, é um livro autobiográfico, todo narrado na primeira pessoa do singular por um PMERJ ainda na ativa, que, por isso mesmo afirma, se esconderá, forçosamente, atrás do pseudônimo de RUBENS, PM este que verteu seu depoimento para a pena do roteirista cinematográfico LEONARDO GUDEL.
Eis trechos da autoapresentação feita pelo editor Luiz Fernando Emediato: “O policial militar da ativa Rubens - mas não se iludam, ele não se chama Rubens e não será identificado por motivos óbvios - relata sua vida e você espera então que ele discorra sobre heroísmo no combate ao crime, aos traficantes, aos assaltantes, aos corruptos."
Mas nada disso acontece. Após a suave autoapresentação, esse falso Rubens abre sua autobiografia com a narrativa curta e apavorante de uma cena dantesca: o massacre impiedoso de pessoas provavelmente inocentes ou que, se culpadas, deveriam ser levadas a julgamento.(...) Aqui, é tudo brutalmente real. Despudoradamente real. Escandalosamente real.
“Sangue Azul - morte e corrupção na PM do Rio” trata da guerra civil não declarada que já existe no Rio de Janeiro e que, até agora, abate principalmente pobres, favelados ou não. Vemos aqui, pela voz de um deles, a história de policiais militares (os tais homens de “sangue azul”) dos quais se espera que nos protejam. (...)
Eis, então, o drama: à medida que avançam em sua missão, esses policiais se corrompem, buscando dinheiro, e se dilaceram no abandono da ética e da própria humanidade. Transformam-se basicamente em matadores. Eles matam bandidos como se fossem justiceiros, mas, na dúvida, acabam matando qualquer um. E aí entram no crime. E então matam adversários. Matam concorrentes. Matam pessoas inocentes, inclusive mulheres e crianças. A barbárie. O horror. (...)
Há momentos em que é difícil acreditar. Duvido que, em seus belos apartamentos nas avenidas Vieira Souto ou Atlântica, os cariocas pelo menos desconfiem de que a verdade é assim. Espero, sinceramente, que se assustem, ou melhor, que se apavorem. Os Rubens ainda não bateram na porta deles, mas essa hora não está longe de chegar.
O morro está logo ali, bem perto, e esses cidadãos convivem com balas perdidas, arrastões, um ou outro assalto. Os filhos deles vão ao morro buscar cocaína, todo mundo sabe. Mas, e agora? O que se relata aqui é outra coisa. É a visão do inferno. Do terror. De um mostro que nos espreita, pronto para nos engolir a qualquer momento.”
Complemento eu que o livro narra como que traficantes agrediram, em um morro, uma mulher, mesmo sabendo -a amante de um sargento PMERJ - e ainda mandaram recado desafiador para o policial. Ele, então, reúne um grupo de duas dezenas de PMs, inclusive um coronel da ativa, chamado no livro de Alfredo, todos sob o comando do sargento, e tomam o morro, torturam e executam os traficantes e os familiares deles, e passam a ser os donos do morro, dali em diante, como se prefeitos fossem do morro, inclusive assumindo, livremente, o tráfico naquele gueto.
Logo em seguida o citado coronel assume o comando do batalhão da área, e, aí, proíbe todo o batalhão de fazer qualquer incursão naquele morro, sob a alegação de que moradores estariam reclamando da truculência da PMERJ. Ao mesmo tempo, o mesmo coronel promove uma operação de sufocamento ao tráfico de drogas e de armas nos morros concorrentes, de molde a direcionar todos os viciados ao morro no qual ele e alguns de seus pares auferiam os lucros de toda sorte de criminalidade ali reinante, e onde a impunidade era total.
As mais de 300 páginas do livro deixam claro que todos os PMs eram, invariavelmente, obrigados a participar das ações dos seus pares de incursões e patamos. Caso se recusassem a aceitar a sua parte nos lucros das extorsões eram mortos pelos próprios companheiros, e a culpa colocada nos traficantes. Ao mesmo tempo, uns traíam os outros com frequência, para não terem que dividir os “butins”, o que criava um clima de falsa amizade entre todos, mas que, na verdade, não passava de aproximação necessária entre comparsas, cúmplices fardados e com o respaldo dado pelo Estado para agir, a qual terminava tão logo interesses eram contrariados. Se drogavam. Estupravam e matavam nos guetos onde incursionavam como senhores da vida e da morte!
O livro mostra, ainda, como que a imprensa era levada a estampar as falsas versões de heroísmo, narradas à mídia pela voz dos próprios PMs, o que fazia com que os leitores acreditassem que eles agiam na defesa da sociedade, quando, na verdade, sempre estavam à procura de interesses escusos seus e de seus comandantes, com os quais tinham que dividir o lucro de tudo que auferiam. E no final, os políticos se beneficiavam disso tudo, com falsas propagandas na mesma mídia, de que o povo podia confiar na sua Polícia e na segurança que o Estado proporcionava.
A única operação séria, honesta, narrada no livro, foi a prisão de um rapaz, que seria “matuto” (abastecedor de bocas de fumo). Mas como este era filho de uma juíza de direito, o grande traficante foi absolvido e todos os componentes da Patamo que o haviam prendido é que foram condenados e expulsos da PMERJ, quando, então, continuaram suas rotinas de assalto a carros, milícias e abastecimento de drogas no morro que eles haviam tomado e que se tornara quintal deles, apesar dos milhares de moradores dali.
Estas são confissões de um PMERJ, o qual afirma, na primeira pessoa, para um roteirista, que este é o dia a dia da Polícia Militar, enquanto o nominado roteirista afirma que, realmente, se trata de um PMERJ da ativa. Com a palavra, agora, a sociedade ultrajada, crédula e sustentadora disso tudo, bem como o Comando da PMERJ, que, inclusive, tem novo corregedor."
Nota do Blog (N do B): Pemitam-me apenas criticar a capa do livro porque, já que a história é baseada em fatos verídicos, não deveria trazer a imagem de policiais da Core (Polícia Civil) e sim da Polícia Militar.
Leia aqui a entrevista de Leonardo Gudel sobre o livro.
http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/reporterdecrime/posts/2010/01/29/leitor-faz-resenha-do-livro-sobre-morte-corrupcao-na-pm-261267.asp