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A História do Livro no Brasil

Uma entrevista com Laurence Hallewell, autor do clássico O Livro no Brasil, que esteve no país no começo de novembro para o I Seminário Brasileiro sobre Livro e História Editorial.


por Bruno Dorigatti

O crescente interesse que a história editorial vem despertando culminou na realização do primeiro seminário dedicado exclusivamente ao assunto, realizado na semana passada, na Fundação Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro. Realizado pelo Núcleo de Pesquisa Livro e História Editorial no Brasil e o Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense, com apoio da Capes, o I Seminário Brasileiro sobre Livro e História Editorial reuniu mais de 100 pesquisadores do assunto, que discutiram desde a importância dos arquivos literários e editoriais para a preservação de fontes, ao atual estágio dos estudos sobre a recepção do livro. Na área histórica, foi montado um amplo panorama da história editorial a partir do século 18 e, numa das mais emocionantes mesas, a memória de três dos maiores editores brasileiros foram apresentadas por seus sucessores. Todos os artigos apresentados no seminário estarão disponíveis em breve no www.livroehistoriaeditorial.pro.br.
Dentre os convidados estrangeiros, destacaram-se os franceses Jean Hébrard, Jean-Yves Mollier, Diana Cooper-Richet; os portugueses José Afonso Furtado e Manuela D. Domingos; Gustavo Sorá, da Argentina, e o inglês Laurence Hallewell, autor do primeiro e mais completo panorama histórico da indústria editorial brasileira, O livro no Brasil, sua história. Há muito esgotado (pode ser encontrado com alguma sorte nos sebos por R$ 50), este clássico já tem uma segunda edição sendo preparada há dois anos, que será publicada no ano que vem pela Edusp. Nesta entrevista ao Portal Literal, Hallewell conta por que resolveu estudar o mercado editorial brasileiro e discute os perigos que ameaçam línguas como o português.

A que o senhor atribui este crescente interesse pela história editorial?
Quando escrevi meu livro, não sabia de nenhum curso, nem aqui, nem na Inglaterra, nem nos Estados Unidos, sobre a indústria e o processo editorial. Havia cursos sobre a história antiga do livro, mas não da edição em si. Mas isso mudou em todos esses países. É simplesmente uma indicação de como todo mundo aumenta seu grau de profissionalização. Isso acontece em todos os ramos da economia, a gente estuda sistematicamente o que antes não foi ensinado formalmente.

Como surgiu a idéia de escrever O livro no Brasil, sua história, e como está a preparação da segunda edição?
Sendo bibliotecário, fui recrutado por uma nova universidade na Inglaterra para cuidar de sua coleção de América Latina. Sendo a universidade completamente nova, essa coleção na realidade não existia e eu comecei criando tudo do zero. Além de biblioteconomia, eu me formei em línguas e literatura ibéricas, mas sabia muito pouco de América Latina e praticamente nada de seu comércio de livros. Naturalmente procurei livros sobre o assunto. Topei com livros sobre a indústria editorial no México, Argentina, Colômbia, Chile e também em Cuba, mas sobre o Brasil somente um livro, que trata da época colonial e não diz nada sobre a moderna indústria, precisamente o que me interessava naquela época. Sabendo tão pouco sobre o país, procurei um jeito de suprir essa lacuna e descobri que o Itamaraty dava, como ainda deve dar, duas bolsas para residentes no Reino Unido – provavelmente para outros países também – pesquisarem no país. Decidi então transformar minha pesquisa na indústria editorial em uma tese de doutorado. Tive a sorte de ganhar a bolsa, o que me permitiu visitar o Brasil. Comecei a pesquisa estudando os poucos livros sobre o assunto. Mas, uma vez chegando aqui, eu pude visitar as editoras e agentes literários. Os brasileiros foram muito acolhedores. Entrar numa editora americana e dizer "posso falar com o dono sobre sua empresa?" [risos], isso provocaria uma reação hostil imediatamente, mas aqui o pior seria: "Você faria o favor de voltar amanhã? Estamos muito atarefados agora". Mas geralmente as pessoas cessavam o que estavam fazendo, ofereciam um cafezinho e conversávamos. E claro, quanto mais gente eu conhecia, mais entendia do assunto e mais perguntas podia fazer. Pouco a pouco fui compreendendo o mercado editorial daqui. Meu propósito original era descrever a indústria editorial da época, mas descobri que a Fundação Getúlio Vargas fazia naquele momento uma pesquisa própria e decidi, em vez de concorrer com a FGV, tornar meu trabalho uma introdução histórica sobre o livro no país. A tese foi aprovada em 1975, consegui uma editora de língua inglesa para editá-la em 1982 e uma editora brasileira para traduzi-la em 1985. Esse editor brasileiro, o TA Queiroz, morreu em janeiro deste ano e foi um grande amigo meu. Eu mandei para ele uma revisão do texto e ficamos aguardando um momento melhor do ponto de vista comercial para lançar a nova edição. Infelizmente morreu. Imediatamente a Edusp, que foi co-editora da primeira edição, ofereceu-me a oportunidade de publicar a segunda edição, com o projeto muito otimista de lançá-la neste seminário. Como não foi possível, a intenção é lançá-la em março. Temos o índice por fazer e as provas por corrigir. Atualizei o texto quando começou as conversas com a TA Queiroz, há dois anos, e precisei atualizar mais ainda ao receber a proposta da Edusp.

Fez muitas mudanças?
Além da atualização – o autor nunca fica satisfeito com o texto original – fiz várias pequenas mudanças e incluí novos assuntos. Por exemplo, nunca pensei no problema de livros para os cegos. Escrevi somente um parágrafo, mas pelo menos toquei no assunto agora. E vi a necessidade de um prefácio sobre como era a Europa da época do descobrimento, porque foram praticamente simultâneas a introdução da tipografia e a abertura do mundo europeu. A primeira expedição além do Cabo de Bojador [no Norte da África, onde hoje se situa o Saara Ocidental], foi em 1445, e o primeiro texto com uma data certa registrada é de 1453. Escrevi um prólogo para discutir as condições da invenção da tipografia. E a Edusp está planejando uma edição magnífica, fisicamente maior, com ilustrações em todas as margens, imprimido em pelo menos duas cores e com uma nova seleção de ilustrações. Vai ser uma coisa magnífica, estou muito orgulhoso de seu esforço.

Em sua palestra, o senhor disse que o Brasil pode viver um processo de desnacionalização de sua indústria editorial. Essa desnacionalização é um processo recente ou vem de longe?
A primeira multinacional neste país foi a editora de Enciclopédias Jackson, em 1911. A Enciclopédia Britânica foi a segunda. Mas a grande entrada se deu nos anos 1970, quando os estrangeiros se deram conta do tamanho do mercado de livros didáticos.

A tendência é essa concentração aumentar? Já está aumentando, não é?
Ao mesmo tempo em que está ocorrendo essa desnacionalização das grandes empresas, observa-se uma proliferação de pequenas editoras, sobretudo pela facilidade tecnológica.

Como o senhor avalia essa contradição?
O problema está na distribuição. É facílimo editar, mas muito mais difícil vender. Especialmente com as pequenas livrarias sendo substituídas pelos conglomerados que só querem realmente vender best-sellers. Há uma cadeia de livrarias no meu país cuja oferta é muito sensível não somente à procura de lucros, mas à questão ideológica. Certos tipos de livros não são vendidos em cadeias como a WH Smith, como o de uma série satírica chamada Private eye.

Qual seria a saída para essa produção?
A Internet tem se firmado como uma saída, mas ela só serve quando você sabe o que quer. E o prazer de entrar numa livraria e encontrar coisas que não pensava existir é único, insubstituível.

Como resolver a questão de um país que tem mais editoras que livrarias, que edita uma média estimada de 50 lançamentos por dia?
Bom, se você acredita no mundo da livre concorrência, então não importa, os fracos vão morrer e os outros prosperar. É uma indicação da facilidade com que se pode hoje editar. Da mesma maneira que todo mundo acredita que pode ser autor, muitos acham que podem se tornar editores. Alguns dão certo, outros não. Muitas editoras são frutos de um dono e, quando o dono morre, o negócio fracassa. Um exemplo é a Brasiliense. Quando Caio Prado se matou houve um interregno antes da família assumir e alguns meses sem dono não servem para nada na prosperidade de uma editora. A antiga Livraria Martins foi só dele, não havia nenhuma outra pessoa envolvida e isso acontece freqüentemente. Porque ser bom editor exige a combinação do artista com o homem de negócios. Às vezes, encontra-se um par que funciona junto. Por exemplo, no século 19 a firma Laemmert foi de dois irmãos: um foi o artista e o outro o homem de negócios. O casal Knopf, Alfred e Blanche Knopf (os americanos que descobriram – para os Estados Unidos, é claro – Jorge Amado) é outro exemplo de duas pessoas juntas com o dom. Mas quando se trata de uma única pessoa com a capacidade de negociar e a capacidade artística, então a empresa depende tanto dele que quando este desaparece a empresa vai a falência.

O que poderia ser feito para uma maior circulação editorial nos países de língua portuguesa?
O grande problema é que, fora Portugal e Brasil, os outros são países lusófonos são muito pobres. E Portugal é um dos menores países da União Européia, tem a economia menos desenvolvida. Durante a Primeira Guerra Mundial, na aliança entre Alemanha e Áustria, os alemães diziam que eram ligados a um cadáver, tal a situação econômica dos austríacos. Guardadas as devidas proporções, Portugal ajuda, mas não é um aliado magnífico. O Brasil tem que realmente depender de si. Faz pouco tempo, éramos a oitava economia do mundo, hoje caímos, mas o fato de que há pouco tempo atingimos posições tão altas indica que podemos recuperá-la. O país tem a riqueza natural, uma população em parte bem-educada. Mas há problemas, como a pobreza, o crime e a corrupção.

O senhor comentou que um dos caminhos seria aumentar o poder aquisitivo da população, mas não acha que diminuir o preço do livro seria relativamente mais fácil?
Isso pode ajudar, mas a coisa mais importante é aumentar o poder aquisitivo. Se você deseja o produto, então não importa tanto o preço, importa sua capacidade de pagar. Para o rico não importa o preço das coisas. Perguntaram a um proprietário de uma frota de navios de cruzeiro como ele esperava vender todos os espaços com aqueles preços exorbitantes em tempos de depressão da economia. A resposta foi: "Não, isso nunca é problema, problema é vender os lugares mais baratos". Ainda entre os relativamente ricos, os menos ricos é que têm problema em comprar.

Quais os perigos que vê para as línguas nacionais?
Em geral, pensa-se ser importante uma língua ter durado séculos. Mas isso não importa, importa é que cada língua tem uma vida certa por somente uma geração. Qualquer idioma pode ser perdido numa geração. Vou dar três exemplos. No Timor Leste os invasores vetaram o uso do português sob pena de morte. Nos 25 anos depois da invasão, o português esteve praticamente fora de uso comum, mesmo que ainda seja a língua oficial e tenha sido usada entre os guerrilheiros, uma parte minúscula da população. Outro exemplo são as Channel Islands, em inglês, e, em francês, Île Normand. Essas ilhas são propriedade da Coroa inglesa, mas, por razões históricas, lá se falava francês. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando todo mundo sabia que não seria possível defender seus habitantes contra os alemães, levaram as crianças para a Inglaterra. Bom, bastaram cinco anos na Inglaterra e todos os menores perderam todo o conhecimento do francês. Quando a guerra acabou e essas crianças voltaram a morar com suas famílias, foi mais fácil para os pais falar inglês com elas do que ensinar o francês que esqueceram. Assim, hoje o idioma fluente nessas ilhas é o inglês. O francês se perdeu dentro de menos de uma geração. Outro exemplo é Trinidad, que foi colônia espanhola, mas, por não ter ouro, poucos espanhóis efetivamente a ocuparam. O governo da Espanha ofereceu no século 18 terra e cidadania espanhola a qualquer pessoa que fosse para lá, para evitar uma conquista pelos ingleses. A maioria destas pessoas era de colônias francesas. Em Trinidad, quase todo mundo falava francês, mas os ingleses, depois da conquista, usavam a sua língua na administração e qualquer pessoa com ambição fora das fazendas sabia que precisaria aprender inglês. Quando acabaram com a escravidão, os ex-escravos não quiseram mais trabalhar no campo, os fazendeiros importaram campesinos da Índia, por ser outra colônia britânica. Esses indianos falavam o hindu ou outro dialeto da Índia e foram obrigados a falar o inglês. A Inglaterra conquistou Trinidad em 1798, e, no princípio do século 20, a maioria falava inglês. Muita gente não sabe que o francês já foi o idioma oficial. Esse é um exemplo do que pode acontecer. A afirmação de que pelo fato de o Brasil falar português deve falar português por toda a eternidade é falsa. Claro, é preciso admitir o conhecimento do inglês por razões práticas, em todo o mundo. Depende do espírito do patriotismo do brasileiro conservar o português. O perigo está na crença de que isso não vai acontecer. É preciso dar-se conta do perigo e lutar contra.

E o que pode ser feito em relação a isso?
Simplesmente exigir o uso do português em toda a oportunidade. Em Quebéc, o espírito do nacionalismo é tanto que você não pode colocar algo em cima de sua loja que não seja em francês, ainda que o Canadá tenha dois idiomas oficiais. Mas, claro, o inglês tem mais poder e, para lutar contra isso, os francófonos de Quebéc passaram leis para proteger seu idioma.

Reproduzido do site www.portalliteral.terra.com.br


Leia Mais:

O Livro no Brasil: sua história. Laurence Hallewell. Edusp (a ser reeditado em 2005)

Momentos do Livro no Brasil. Editora Ática

A Origem do Livro. Úrsula E. Katzenstein. Hucitec/Instituto Nacional do Livro

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