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Um papo sobre criatividade

O que Van Gogh, Einstein, Poe, Picasso, Millôr, Jung e outros criativos têm a dizer a respeito


por Ricardo Tiezzi

Todo mundo sabe o que é mas é difícil defini-la. Mais ou menos como Santo Agostinho falou sobre o tempo: “Se não me perguntam, sei o que é; se me perguntam, deixo de o saber.” A criatividade carrega um aura de mistério. E perguntas não respondidas: Todas as pessoas têm? Como acontece o processo criativo? É possível desenvolvê-la?
Mas isso não impediu – ao contrário, até estimulou – que muito se elocubrasse a respeito da criatividade. Ainda que respostas definitivas não existam, como admitiu o sociólogo Domenico De Masi apesar de seu compêndio de 800 páginas sobre o tema – Criatividade e Grupos Criativos – vale muito a pena ouvirmos o que disseram as pessoas que viveram uma relação íntima com a criatividade: estudiosos do assunto, cientistas e, sobretudo, artistas.
A criatividade parece nascer de um estado particular de espírito. “Quais as condições necessárias para a atitude criativa?”, pergunta Erich Fromm. “Antes de tudo, é indispensável estar perplexo.” Ferreira Gullar diz a mesma coisa em forma poética: “A rotina é o contrário da poesia.”
Diante dessa perplexidade, dessa descoberta que “consiste em olhar para o que todo mundo está vendo e pensar uma coisa diferente”, nas palavras do prêmio Nobel de Medicina Albert Szent-Györgyi, nasce o estado de criação. Van Gogh o descreveu assim: “As emoções são tão fortes que trabalho sem sentir, as pinceladas seguem um ritmo semelhante ao das palavras de um discurso ou de uma carta. Não tenho tempo de pensar ou sentir.” E Paul Valéry tentou traduzir o momento da centelha criativa: “Às vezes eu observei esse momento em que uma sensação chega à mente; é como um lampejo de luz, que não ilumina tanto quanto deslumbra.”
Possivelmente foi esse lampejo de luz que fez com que Picasso olhasse o que todo mundo vê – uma bicicleta velha – e tenha enxergado ali, arrancando e soldando a roda e o guidom, uma cabeça de touro. O pintor nada mais fez do que negar a realidade cotidiana mais presente aos sentidos, o que era uma das tônicas do seu trabalho. Foi por isso que Picasso afirmou que “todo ato de criação é, antes de tudo, um ato de destruição.”
É um “pensar ali do lado”, nas palavras do filósofo francês Etienne Souriau. Um novo jeito de olhar o mundo que vai abrindo perspectivas. “Do mesmo modo como o explorador penetra em terras e desconhecidas, fazem-se descobertas na vida cotidiana, e o meio circundante outrora mudo começa a falar uma linguagem que se torna cada vez mais clara”, ensina o pintor Wassily Kandinsky.

Artista operário – Mas se engana quem pensa que a iluminação faz o gênio. O famoso Eureka! (que quer dizer: Descobri!) de Arquimedes é só uma parte do negócio. Para a inspiração acontecer e se realizar não tem outra fórmula: trabalho, muito trabalho. Como bem observa Millôr Fernandes, muitos poderiam ter sido Michelângelo, mas “quem teve a coragem de sentar o rabo lá, durante quatro ou cinco anos, e se matar de pintar, foi ele”. É por isso que o guru do Méier sentenciou: “Inspiração é coisa de amador. Profissional trabalha.” Com ele, Luis Fernando Veríssimo também tirou o poder de criação do seu pedestal sobrenatural: “Minha musa inspiradora é o prazo.” E Delacroix também chamou o artista a meter a mão na massa: “Aprenda a ser um artesão; isto não o impedirá de ser um gênio.”
São opiniões que quebram os mitos da originalidade, da inspiração e do gênio – para alguns, uma invenção romântica datada do início do século 19. Segundo o psicólogo e cientista Carl Rogers, todo mundo é criativo. “A ação da criança que inventa uma nova brincadeira com os seus companheiros, ou a de Einstein, que formula a teoria da relatividade, ou a da boa dona-de-casa que inventa um novo molho para o prato, ou a de um jovem escritor que escreve seu primeiro romance, são todas, segundo a nossa definição, criativas”, diz. Foi o que disse o poeta, pintor e gravador William Blake a seus alunos: “Vocês têm a mesma faculdade que eu, apenas não confiam nela ou não a cultivam.” Uma boa argumentação em favor disso é dada por Ralph Waldo Emerson, quando afirma que “em toda obra de gênio reconhecemos nossos próprios pensamentos rejeitados”. Talvez o que falte seja apenas despertar o lado criativo. “Algo está vivo em mim, só não sei o quê”, lamentava-se Van Gogh antes de ingressar na vida artística. De qualquer forma a criação é parte do ser, pois, argumenta Jung, “quem, eventualmente, poeta não é, cria o quê? Se alguém não tem mesmo nada para criar, pode talvez criar a si mesmo”.
Mas sem dúvida há algo além do trabalho no espírito criativo. Ele pode, e deve, inclusive se dar ao luxo de praticar aquilo que hoje se chama “ócio criativo”, para que as idéias venham. O autor do termo, Domenico De Masi, o definiu assim: “Quando trabalho, estudo e jogo coincidem, estamos diante daquela síntese exaltante que eu chamo de ócio criativo.” Em outras palavras e com seu estilo inconfundível, Plínio Marcos traduziu: “Coçar o saco é parte fundamental do trabalho do artista.” E o filósofo Alexander Koyré, dá um argumento definitivo: “Não é do trabalho que nasce a civilização: ela nasce do tempo livre e do jogo.”

Inspiração e transpiração – Como criar algo a partir do lampejo, do trabalho e do ócio é questão que divide opiniões. Para o escritor noir Raymond Chandler, “quanto mais você raciocina, menos você cria”, referindo-se a algum outro setor onde se realiza o processo, designado assim por Pedro Almodóvar: “Eu tenho que seguir os meus instintos.”
Afirmações do tipo causariam barulheira entre artistas cerebrais como João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa e, no cinema, Eisenstein, por exemplo, que mantinham amplo controle racional sobre suas obras. Um dos ícones dessa equipe é o romancista Henry James, que em seus famosos prefácios estabelecia o método completo por trás do romance.
Edgar Allan Poe foi mais longe. Em seu ensaio Filosofia da Composição deu a receita completa de como criou seu mais célebre poema, O Corvo. “É minha intenção demonstrar que nenhuma parte dela foi devida ao acaso ou à intuição – que a obra prosseguiu, passo a passo, até o seu remate, com a precisão e a rígida conseqüência de um problema matemático... com o objetivo de compor uma poesia capaz de satisfazer ao mesmo tempo o gosto popular e o crítico”, escreveu.
Pode não dar muito certo. Stendhal chegou a escrever meia página de uma Arte de Compor Romances, em que explicitaria as regras das grandes intrigas, mas quando começou a escrever O Vermelho e o Negro confessa que deixou de lado todo o planejamento.
Esse dilema controle total sobre a obra versus abertura para o imprevisível mobilizou Carl Jung, que ficou no segundo time: “Não é Goethe que cria o Fausto, mas o Fausto que cria Goethe.” Cortázar aparece como importante reforço. “No meu caso, a grande maioria dos meus contos foram escritos – como dizê-lo? – independentemente da minha vontade, por cima ou por baixo de minha consciência, como se eu não fosse mais que um meio pelo qual passava e se manifestava uma força alheia”, sentenciou.

A força da imaginação – Seja como for, é bom ter por perto o conselho do pintor Georges Braque: “Há alguns mistérios, alguns segredos, em minha obra que nem mesmo compreendo, e nem tento fazê-lo. Os mistérios têm de ser respeitados, se devem conservar sua força.”
Descobrir algo novo é, antes de tudo, um mistério. E um desafio. Para criar e para enfrentar as reações. Freud foi sábio quando disse que a história de toda grande descoberta tem três etapas. Primeiro todos dizem que o descobridor é louco; depois, que é são mas que a descoberta não tem interesse; e, por fim, que a descoberta é muito importante, mas todo mundo já a conhecia.
Ainda assim, apostar na criatividade vale a pena. “A imaginação é mais importante que o conhecimento.” A frase ganha muito mais força quando sabemos que ela veio de alguém que talvez tenha tido o maior conhecimento do século 20, Albert Einstein. Por isso, nada melhor que fechar com outra dele: “A mente que se abre a uma nova idéia jamais volta ao tamanho original.” E ponto final.


Leia mais:

Técnica para produção de idéias. James Webb Young. Editora Nobel.

Valise de Cronópio. Julio Cortázar. Perspectiva

Cartas Perto do Coração. Fernando Sabino e Clarice Lispector. Record

Cartas a Theo. Vincent Van Gogh. L&PM

Desenhando com o Artista Interior. Betty Edwards. Claridade

Mentes Extraordinárias. Howard Gardner. Rocco

Ser Criativo. Stephen Nachmanovitch. Summus

Criatividade e Grupos Criativos. Domenico De Masi. Sextante

Ficção Completa. Edgar Allan Poe. Nova Aguilar

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