Artista
operário – Mas se engana
quem pensa que a iluminação faz
o gênio. O famoso Eureka! (que quer dizer:
Descobri!) de Arquimedes é só
uma parte do negócio. Para a inspiração
acontecer e se realizar não tem outra
fórmula: trabalho, muito trabalho. Como
bem observa Millôr Fernandes, muitos poderiam
ter sido Michelângelo, mas “quem
teve a coragem de sentar o rabo lá, durante
quatro ou cinco anos, e se matar de pintar,
foi ele”. É por isso que o guru
do Méier sentenciou: “Inspiração
é coisa de amador. Profissional trabalha.”
Com ele, Luis Fernando Veríssimo também
tirou o poder de criação do seu
pedestal sobrenatural: “Minha musa inspiradora
é o prazo.” E Delacroix também
chamou o artista a meter a mão na massa:
“Aprenda a ser um artesão; isto
não o impedirá de ser um gênio.”
São opiniões que quebram os mitos
da originalidade, da inspiração
e do gênio – para alguns, uma invenção
romântica datada do início do século
19. Segundo o psicólogo e cientista Carl
Rogers, todo mundo é criativo. “A
ação da criança que inventa
uma nova brincadeira com os seus companheiros,
ou a de Einstein, que formula a teoria da relatividade,
ou a da boa dona-de-casa que inventa um novo
molho para o prato, ou a de um jovem escritor
que escreve seu primeiro romance, são
todas, segundo a nossa definição,
criativas”, diz. Foi o que disse o poeta,
pintor e gravador William Blake a seus alunos:
“Vocês têm a mesma faculdade
que eu, apenas não confiam nela ou não
a cultivam.” Uma boa argumentação
em favor disso é dada por Ralph Waldo
Emerson, quando afirma que “em toda obra
de gênio reconhecemos nossos próprios
pensamentos rejeitados”. Talvez o que
falte seja apenas despertar o lado criativo.
“Algo está vivo em mim, só
não sei o quê”, lamentava-se
Van Gogh antes de ingressar na vida artística.
De qualquer forma a criação é
parte do ser, pois, argumenta Jung, “quem,
eventualmente, poeta não é, cria
o quê? Se alguém não tem
mesmo nada para criar, pode talvez criar a si
mesmo”.
Mas sem dúvida há algo além
do trabalho no espírito criativo. Ele
pode, e deve, inclusive se dar ao luxo de praticar
aquilo que hoje se chama “ócio
criativo”, para que as idéias venham.
O autor do termo, Domenico De Masi, o definiu
assim: “Quando trabalho, estudo e jogo
coincidem, estamos diante daquela síntese
exaltante que eu chamo de ócio criativo.”
Em outras palavras e com seu estilo inconfundível,
Plínio Marcos traduziu: “Coçar
o saco é parte fundamental do trabalho
do artista.” E o filósofo Alexander
Koyré, dá um argumento definitivo:
“Não é do trabalho que nasce
a civilização: ela nasce do tempo
livre e do jogo.”
Inspiração
e transpiração –
Como criar algo a partir do lampejo, do trabalho
e do ócio é questão que
divide opiniões. Para o escritor noir
Raymond Chandler, “quanto mais você
raciocina, menos você cria”, referindo-se
a algum outro setor onde se realiza o processo,
designado assim por Pedro Almodóvar:
“Eu tenho que seguir os meus instintos.”
Afirmações do tipo causariam barulheira
entre artistas cerebrais como João Cabral
de Melo Neto, Guimarães Rosa e, no cinema,
Eisenstein, por exemplo, que mantinham amplo
controle racional sobre suas obras. Um dos ícones
dessa equipe é o romancista Henry James,
que em seus famosos prefácios estabelecia
o método completo por trás do
romance.
Edgar Allan Poe foi mais longe. Em seu ensaio
Filosofia da Composição deu a
receita completa de como criou seu mais célebre
poema, O Corvo. “É minha intenção
demonstrar que nenhuma parte dela foi devida
ao acaso ou à intuição
– que a obra prosseguiu, passo a passo,
até o seu remate, com a precisão
e a rígida conseqüência de
um problema matemático... com o objetivo
de compor uma poesia capaz de satisfazer ao
mesmo tempo o gosto popular e o crítico”,
escreveu.
Pode não dar muito certo. Stendhal chegou
a escrever meia página de uma Arte de
Compor Romances, em que explicitaria as regras
das grandes intrigas, mas quando começou
a escrever O Vermelho e o Negro confessa que
deixou de lado todo o planejamento.
Esse dilema controle total sobre a obra versus
abertura para o imprevisível mobilizou
Carl Jung, que ficou no segundo time: “Não
é Goethe que cria o Fausto, mas o Fausto
que cria Goethe.” Cortázar aparece
como importante reforço. “No meu
caso, a grande maioria dos meus contos foram
escritos – como dizê-lo? –
independentemente da minha vontade, por cima
ou por baixo de minha consciência, como
se eu não fosse mais que um meio pelo
qual passava e se manifestava uma força
alheia”, sentenciou.
A força
da imaginação –
Seja como for, é bom ter por perto o
conselho do pintor Georges Braque: “Há
alguns mistérios, alguns segredos, em
minha obra que nem mesmo compreendo, e nem tento
fazê-lo. Os mistérios têm
de ser respeitados, se devem conservar sua força.”
Descobrir algo novo é, antes de tudo,
um mistério. E um desafio. Para criar
e para enfrentar as reações. Freud
foi sábio quando disse que a história
de toda grande descoberta tem três etapas.
Primeiro todos dizem que o descobridor é
louco; depois, que é são mas que
a descoberta não tem interesse; e, por
fim, que a descoberta é muito importante,
mas todo mundo já a conhecia.
Ainda assim, apostar na criatividade vale a
pena. “A imaginação é
mais importante que o conhecimento.” A
frase ganha muito mais força quando sabemos
que ela veio de alguém que talvez tenha
tido o maior conhecimento do século 20,
Albert Einstein. Por isso, nada melhor que fechar
com outra dele: “A mente que se abre a
uma nova idéia jamais volta ao tamanho
original.” E ponto final.
Leia mais:
Técnica
para produção de idéias.
James Webb Young. Editora Nobel.
Valise de Cronópio.
Julio Cortázar. Perspectiva
Cartas Perto
do Coração. Fernando Sabino e
Clarice Lispector. Record
Cartas a Theo.
Vincent Van Gogh. L&PM
Desenhando com
o Artista Interior. Betty Edwards. Claridade
Mentes Extraordinárias.
Howard Gardner. Rocco
Ser Criativo.
Stephen Nachmanovitch. Summus
Criatividade
e Grupos Criativos. Domenico De Masi. Sextante
Ficção
Completa. Edgar Allan Poe. Nova Aguilar