Era inevitável: todas
as manhãs ele via a morte no espelho. Não porque
a morte tenha sido sempre um tema constante, quase
obsessivo, em sua obra amarga, descrente de Deus,
do mundo e dos homens. É que via o rosto no espelho,
os cabelos brancos, as manchas na pele e descobria:
estava ficando velho. A vida estava no fim. E foi
assim - falando da morte, desencantado e amargo,
mas também irônico e brincalhão - que ele concedeu
sua última grande entrevista a um jornal. Quando
fez, ao longo de quase quatro horas, um emocionado
depoimento de 20 mil palavras, das quais o Caderno
2 publicou três mil - as mesmas que republicamos
hoje. Foi com ceticismo e desesperança - mas fazendo
questão de afirmar que viver vale a pena, "embora
não tenha pedido para nascer" - que ele passou a
vida a limpo.
A infância "nem feliz nem infeliz". A juventude
- quando pôs fogo em um bonde (puro divertimento).
A vida de funcionário público da ditadura Vargas
(fidelidade ao amigo Gustavo Capanema, ministro).
O cidadão que votou em todo o tipo de gente - de
Jânio Quadros aos candidatos do PT. Os livros -
mais de 40. Infância, poesia, amor, sexo, morte,
política, Deus - Drummond falou como nunca. No final,
uma frase que só poderia ser dele: "Eu não acredito
em nenhum valor de ordem política, filosófica, social
ou religiosa. Acho a vida uma experiência que tem
de ser vivida e se esgota, termina. Depois disso,
mais nada".
Luiz Fernando Emediato
Emediato - o senhor tem boas recordações
da sua Infância?
Drummond - Eu tenho sim. Eu vivia
em um meio rural em que criança gozava de grande
liberdade. O cenário era vasto e tanto a cidade
quanto os arredores, o campo, nos dava uma grande
liberdade.
O senhor teve uma infância feliz?
Drummond - Não sei se pode chamar
de feliz a infância, porque há sempre aqueles traumas
da falta de entendimento com os adultos, o mistério
da vida que a gente não decifra. Eu acho que uma
criança pode ser tão feliz ou tão infeliz quanto
um adulto.
Qual sua recordação infantil mais marcante?
Drummond - O cometa Halley. É a
lembrança mais profunda. pois realmente foi deslumbrante.
Eu tinha sete anos. Eu não estava esperando aquilo,
não estava, preparado, vivia na rotina, brincando...
O senhor brincava de quê?
Drummond - De plantar bananeira,
aquele brinquedo de montar no outro e sair correndo...
Como é que chamava aquilo? Pular carniça. E de gata
parida. Você sabe o que é gata parida?
Não.
Drummond - A gente sentava num
banco, cinco ou seis sujeitos se espremiam, para
ver quem caía do banco primeiro. Era bom, era gostoso.
Naquele tempo não tinha gelo, eletricidade, cinema,
automóvel. Mas a gente vivia muito bem e não sentia
falta de nada. Hoje, se a televisão for suspensa,
a criança morre de desgosto.
O senhor lembra quando viu o gelo pela primeira
vez?
Drummond - Minha experiência com
o sorvete foi trágica. Não sabia como tomar sorvete
e meu irmão, que já era mais civilizado do que eu,
tomou com a maior galhardia. Eu, não; eu metia o
dente no sorvete e sentia aquela dor horrorosa (risos).
E aquela humi lhação, porque meu irmão não queria
que eu de monstrasse que não sabia tomar sorvete,
e eu repelia o sorvete e ele falava: "Toma, desgraçado!"
(risos)
O senhor tem alguma lembrança amarga da
infância?
Drummond - A incompreensão. Éramos
seis irmãos e havia dificuldade de se entender,
entre todos. Só o meu irmão mais velho, depois de
mim, é que era meu companheiro. Eu era fraco, fraquinho,
e ele toma va a minha defesa, mas quando acabava
aquilo ele baixava em cima de mim também. Era uma
guerra.
E as namoradinhas?
Drummond - Eu tive várias namoradas.
Mas o namoro no meu tempo era à distância. Uma menina
morava num sobrado, no segundo andar, e eu namorava
da rua, da esquina, olhando assim pra ela. Um sorriso
era um prêmio, uma gratificação enorme. Não havia
contato pessoal. Depois, quando jovem, em Belo Horizonte,
eu sentia muito a dificuldade de aproximação com
as moças. Era proibido olhar para as mulheres. Na
praça da Liberdade, você conhece bem, as moças andavam
pra baixo e pra cima, e os rapazes ficavam olhando.
Mas era só isso. Elas iam acompanhadas ou da mãe
ou de um irmão, e o irmão usava bengala, que era
um instrumento muito poderoso, que impedia que a
gente tentas sê qualquer liberdade maior - um beijo,
por exemplo. Quem é que podia beijar uma moça? Era
um problema dificílimo.
Consta que o senhor foi expulso de um colégio.
É verdade?
Drummond - Eu estudei dois anos
no colégio dos Jesuítas, em Friburgo, e era considerado
um dos melhores alunos da classe, mas descobriram
um dia que eu era um elemento nocivo.
Nocivo, por quê?
Drummond - Talvez fosse uma tentativa
de manifestar independência de espírito. Eu fui
expulso de uma ma neira muito arbitrária, sem direito
de defesa. Fizeram uma reunião pública e, de surpresa,
o próprio padre reitor declarou-me indigno, diante
de todos, de permanecer naquele estabelecimento.
Ajunte suas coisas e saia da sala", disse ele. Eu
tinha 14, ou 15 anos. Foi terrível. Fui confinado
num quarto, não podia nem dormir com os outros e
tive de sair de madrugada, sem me despedir de ninguém.
Isso marcou multo o senhor, parece.
Drummond - Foi terrível. Tomei
o trem com moral baixíssi mo. Havia no trem uma
viúva toda de preto, com duas meninas tam:bém de
preto, e uma delas olhou para mim e sorriu. Esqueci
completamente a minha desgraça e fiquei namorando
a garota, mas elas desceram numa estação e meu moral
voltou abaixo do zero, até chegar em Belo Horizonte.
Como o senhor explicou essa história para
o seu pai?
Drummond - O jesuíta é muito falso,
muito hipócrita. Neste particular foram generosos
comigo, não disseram a verdade a meu pai. Apenas
aconselharam que, por motivos outros, me transferisse
de escola.
Mas o senhor contou a verdade para seu pai?
Drummond - Não. Meu pai era um
homem muito reto, mas sei lá se ia aprovar ou não...
Ele era fazendeiro em Minas?
Drummond - Sim. Era considerado
um homem muito rico, porque todo mundo era pobre
no interior de Minas. Então, qualquer pessoa que
tivesse um palmo de terra era um afortunado.
Como era seu relacionamento com ele?
Drummond - Não foi fácil, não.
Meu pai foi incumbido pela sociedade doméstico-conjugal
de ser o juiz, o justiceiro. Minha mãe era aquela
doçura e, quando via que estávamos nos comportando
mal, apelava para meu pai, que tomava a atitude
do homem que castigava. Mas a gente nunca aprendia.
só muito mais tarde entendi que ele era obrigado
a fazer aquilo. Custei a compreender isto.
Que tipo de castigo ele dava para os filhos?
Drummond - Prendia no quarto, cortava
sobremesa... De vez em quando dava uns tapas. Uma
vez achei que ele ia me bater e levantei a mão para
não apanhar na cara e ele ficou estarrecido, pensou
que eu ia bater nele. Meu irmão, que era meio safado,
então gritou: "Você é um parricida". Eu respeitava
muito meu pai. Tenho muita saudade dele, muita saudade
mesmo.
E a sua adolescência, como foi?
Drummond
- Tumultuada. Depois da expulsão
do colégio jesuíta fui morar em pensão,
em Belo Horizonte. Tive a sorte de encontrar os
melhores amigos da minha vida.
Faziam multa
farra?
Drummond
- Tomávamos cerveja no Bar do Ponto
- você lembra do Bar do Ponto?
Não.
Drummond
- Sim, não é do seu tempo.
Eu sou uma múmia, bem? (risos) O Bar do Ponto
não existe mais. Quando sobrava algum dinheiro
a gente esticava na zona, na Rua Guaicurus, tinha
lá um restaurante onde a gente ceava um famoso
bife a cavalo. A maior delícia.
O senhor
se lembra de sua primeira experiência sexual
ali na Rua Guaicurus?
Drummond
- Não guardei não. Isso nem
vale a pena contar... Mas não foi na rua
Guaicurus. Mas, sabe, não é assim
tão interessante, to do mundo tem lá
um dia a sua primeira vez e fica meio espantado,
descobre o mundo.
O senhor
bebia muito?
Drummond
- Não, só uma cerveja. E
Martini... E o Madeira leve, uma espécie
de vinho do Porto.
E droga,
havia?
Drummond
- Havia a cocaína. Eu experimentei
uma vez e não achei graça nenhuma,
não senti nada. Era falsificada, uma espécie
de bicarbonato. O que a gente apreciava mui to era
o éter. E também o lança-perfume,
mas só no carnaval. Eu gostava muito de uma
frase sobre droga que dizia assim: "A cigarra
gelada do éter". De fato, dava uma sensação
de cigarra cantando. Zunia. Lançava o lança-perfume
no próprio lenço e eu sentia aquela
vibração, aque la fúria.
É
verdade que naquela época, anos 20, em Belo
Horizonte, o senhor e o Pedro Nava tocaram fogo
numa casa?
Drummond
- É verdade. Metemos fogo num varal
de roupas dentro da casa de umas moças, as
Vivacquas, e o fogo se alastrou. E então
eu disse ao Nava: vamos desistir dessa bobagem.
Demos a volta, apertamos a campainha. As moças
queriam saltar. Ajudamos a apagar o fogo, como heróis.
Um guarda-civil tinha visto tudo, e no outro dia
fomos chamados à delegacia, mas o delegado
era casado com uma parenta minha e eles abafaram
a história. Surgiu a versão de que
tínhamos tocado fogo na casa para vermos
as moças de camisola, quando elas fugissem.
Foi pura farra, sem nenhuma intenção.
Diz a história
que o senhor também tocou fogo num bonde.
O senhor por acaso era um incendiário?
Drummond
- É, talvez eu tivesse essa vocação,
sem perceber. Mas o caso do bonde foi um simples
protesto de estudantes. Tinham aumentado o preço
dos ingressos do cinema para dois mil réis,
e aquilo foi considerado um escândalo. Não
podíamos aceitar. Decidimos então
atacar os bondes. Afastamos o motorneiro - não
sei,como conseguimos força para isso - e
tocamos fogo nele. Até um pedaço do
bonde eu consegui levar para casa, como um troféu.
(Risos) A vida em Belo Horizonte era uma mesmice.
Parece que
sua adolescência foi muito divertida. Metendo
fogo em casas, se divertindo com a policia...
Drummond
- Foi divertida, sim. Ao mesmo tempo havia
a preocupação literária. Todos
nós escrevíamos. Nós nos reuníamos
toda noite, cada um mostrava seu trabalho e os outros
criticavam com muita serenidade, com muita objetividade.
O Milton Campos, o João Alphonsus, o Nava...
O senhor
teve na juventude alguma paixão desmedida,
além da Greta Garbo, sobre quem escreveu
uma crônica?
Drummond
- Você está explorando muito
a minha vida, e ela é muito pouco interessante.
Vamos falar
de literatura, então. Mas o senhor não
acha que sua obra pode ter sido determinada pelo
que aconteceu na sua infância, na sua adolescência
e, depois, na sua maturidade, essa carga toda de
experiência de vida?
Drummond
- A minha obra literária foi determinada
pela circunstância de eu ser mineiro. Mineiro
do interior de Minas, uma região de mineração,
onde a dificuldade de comunicação
era maior do que em outras zonas do Estado. Nós
vivíamos ilhados. Éramos fechados
por necessidade e por contingência
O senhor
acha então que Minas é um lugar especial?
Drummond
- Você é mineiro, não
é? Minas foi um lugar especial. Hoje não
é.
O senhor
foi autodidata, não é? Isso por acaso
o limitou em alguma coisa.
Drummond
- É. eu fiz maus cursos. Tenho apenas
o terceiro ano ginasial. Estudei Farmácia
numa escola livre. Eu não tenho uma formação
cultural básica,não é?, que
possa ser caracterizada como de um escritor de nível
médio. Um escritor consciente de seu ofício
deveria ter uma formação cultural
bastante boa, como de conhecimento de literaturas
estrangeiras. A minha formação foi
mais francesa.
Será
que sua poesia teria sido diferente se o senhor
tivesse tido uma formação cultural
e filosófica mais profunda?
Drummond
- Não sei. Uma grande parte da cultura
que a pessoa absorve para uma carreira literária
é para não ser consumida, é
só para servir de pano de fundo. Na realidade,
a gente obedece a um impulso interior, à
capacidade de imaginação que nós
temos. Porque, se fôssemos nos prender àquilo
que lemos ou aprendemos não escreveríamos
nada.Todas as obras-primas já foram escritas.
O contemporâneo não conta, a meu ver.
O senhor
consegue explicar essa emoção que
o leva a escrever intuitivamente?
Drummond
- Eu sou inteiramente partidário
da idéia da inspiração. Seja
banal, antiquado, mas sem inspiração
não se faz nem se escreve nada. A pessoa
adquire a técnica de se comunicar e tem facilidade,
como eu tenho, de escrever coisas. Mas aquela coisa
profunda que vem das entranhas da gente, isto é
inspiração.
Que é
que o senhor sente no fundo do coração
quando está criando?
Drummond
- Quando estou criando um poema eu sinto
uma certa exaltação física,
um certo ardor. (Pausa) Não, não exageremos;
também não é um estado de transe,
de levitação. Mas sinto uma espécie
de emoção particular que me impele
a escrever. E isso me surge até em horas
imprevistas, diante de um espetáculo, de
uma criança dormindo na rua, um cachorro
mexendo com o rabo, uma moça. Qualquer destas
coisas pode provocar na gente um estado poético.
Ao lado disso, há o lado crítico,
depois.
Os seus escritos
têm dois lados: um é humorado, alegre,
lúdico. O outro é amargo. Qual dos
dois é o verdadeiro?
Drummond
- Eu acho que o mais sincero é o
lado amargo, não é? Eu sou uma pessoa
inteiramente pessimista, cética. Não
acredito em nenhum valor de ordem política,
filosófica, social ou religiosa. Acho a vida
uma experiência que tem de ser vivida, mas
que se esgota e termina, acabou, não tem
nada.
Vale a pena
viver, apesar disso?
Drummond
- Claro, porque deram a você essa
oportunidade.
Ou viver
é só uma fatalidade?
Drummond
- É, porque você não
pediu, você foi chamado. Então é
uma fatalidade neste sentido. Então procure
viver o menos desagradavelmente possível.
O senhor
acredita em Deus?
Drummond
- Não.
Só
isso? Não?!
Drummond
- Sou rigorosamente agnóstico. Uma
pessoa que não pode afirmar a inexistência
de Deus, da mesma maneira que não pode afirmar
a existência. Não tenho, na minha capacidade
intelectual. condições para afirmar
que Deus existe. E, a não ser os teólogos.
duvido que alguém mais tenha capacidade para
isso. Mas eu passo muito bem sem Deus. Não
me dá remorso e foi uma conquista da minha
vida. à qual agradeço em parte aos
meus queridos jesuítas. Porque eles é
que começaram a fazer desabar em mim a idéia
de Deus como um Todo-Poderoso que regula a vida
e a morte das pessoas. Mas respeito profundamente
qualquer forma de religião.
E a morte,
Drummond?
Drummond
- Eu estou encarando. não é?
Outro dia um amigo meu perguntou a outro: "Você
pensa na morte?" E ele respondeu: "Não
penso em outra coisa".
O senhor
brinca muito com a Idéia da morte.
Drummond
- Desde menino que eu penso na morte. Sabe,
eu queria ser cremado, mas não existe crematório
no Rio, a Santa Casa, que vive do negócio
de vender túmulos, impede a criação
de crematórios. Quis ser então cremado
em São Paulo, quando morrer, mas dá
tanto trabalho, é preciso levar uma testemunha.
uma burocracia. Não quero chatear ninguém,
então comprei um túmulo no cemitério
São João Batista, aqui no Rio. Tenho
lá uma situação privilegiada,
porque o meu túmulo está no alto do
morro. No mesmo nível do mausoléu
da Academia Brasileira de Letras. Então é
de igual para igual (risos). Mas. sabe eu tenho
pena das pessoas que vão me sepultar, porque
para chegar ao meu túmulo é preciso
subir uma escadinha estreita. Não vai ser
fácil. Mas não tenho culpa, foi o
lugar que encontrei para comprar, não tinha
outro.
O senhor
é feliz?
Drummond
- Não sei. Não sei. Eu não
sei o que é ser feliz. Eu vivo, e vivo em
paz com meus semelhantes.
O que é
a esperança, para o senhor?
Drummond
- Um fio muito fino,ao qual eu meu agarro
para não morrer desesperado.
Um de seus
poemas, José, é um poema desesperado,
mas no final ele não se mata, ou seja: o
senhor escreve coisas amargas, mas às vezes
deixa uma abertura, uma ponta de esperança.
Drummond
- Sim, ele não se mata. Ele marcha,
ele anda.
O que o senhor
acha do suicídio?
Drummond
- Uma solução heróica.
De uma grandeza moral enorme. A não ser,
claro, quando o suicida é doente, que se
mata porque está privado do raciocínio.
E a política?
Como o senhor entrou na vida política?
Drummond
- Entrei na política em 1945. Eu
tinha sido chefe de gabinete de ministro no governo
Vargas, mas não era político. Em 1945
eu simpatizava com o Partido Comunista e, durante
três meses, meu nome apareceu no expediente
do jornal do partido.A experiência não
me deixou saudades, saí de lá com
o rabo entre as pernas.
Por quê?
Drummond
- Éramos diretores do jornal e nenhum
de nós dirigia coisa nenhuma. O jornal censurava
as coisas mais absurdas. Até informações.
Fiquei desencantado com o partido. Não quis
mais saber de comunismo.
Como é
que o senhor se define hoje, ideologicamente?
Drummond
- Eu não sou nada, nada. Eu seria
um eleitor em potencial do Partido Socialista Brasileiro.
Mas não sou mais eleitor, desisti de me recadastrar.
O senhor não vai votar este ano, então?
Não, não vou. Estou desencantado com
isso. Tenho uma longa experiência de desencanto
político. Em 1910, eu tinha sete anos de
idade e o marechal Hermes da Fonseca foi eleito
presidente da República com 400 mil votos
redondos. Nem um a mais e nem um a menos. Por sua
vez, o chefe da campanha civilista mandou telegramas
para todos os diretórios civilistas noS Estados
recomendando que aumentassem a votação
nas notícias aos jornais. Houve fraudes dos
dois lados.
O senhor
votou em Jânio Quadros para presidente?
Drummond
- Votei, E depois disso você acha
que eu ainda vou votar em mais alguém?
O senhor
apoiou o movimento de 64?
Drummond
- Não apoiei não. Eu fui
contra João Goulart, achei que a derrubada
dele foi salutar. Mas uma semana depois já
haviam praticado tais desmandos que não pude
apoiar. Posso ter pecado por omissão por
não ter denunciado logo, mas não apoiei.
O que é
o que o senhor pensa da situação política
no Brasil hoje?
Drummond
- Não vou votar. Minha reação
de desencanto explica tudo, não é?
E a República
do escritor José Sarney?
Drummond
- Não vejo nada, não. Eu
acho que o Plano Cruzado foi uma boa idéia,
vamos ser justos, uma idéia bem-intencionada.
Mas estamos sem carne, não é? O congelamento
não resolve. Estamos numa sociedade capitalista
em que o motivo principal do trabalho é o
lucro. O boi não tem opinião, coitado.
Aliás, nessa história de congelamento,
eu tenho muita simpatia é pelo boi, que está
vivendo mais alguns meses no pasto.
O que é
que o senhor sente quando vê, pelos jornais
ou pela TV, que o Congresso está vazio?
Drummond
- Eu acho terrível. E a gente não
pode falar contra o Executivo, porque tem que falar
mais mal ainda do Legislativo. O empreguismo, o
clientelismo, o filhotismo, a falta de responsabilidade...
Um artista,
um intelectual tem opiniões que pesam multo
na sociedade. O senhor acha que...
Drummond
- O que mais podemos fazer é conservar
nossa dignidade. Não participando daquilo
que nos pareça errado ou nocivo ao bem comum.
A obrigação do escritor e do artista
é fazer a melhor literatura, a melhor arte.
Interpretar bem o sentido das coisas, o mistério
da alma humana. o mistério das relações
sociais. Não vejo como o artista pode influenciar
na sociedade brasileira. Ele acaba sendo cantado
pelos poderosos e prestando serviços a eles.
E a Constituinte?
Drummond
- Eu gostaria muito que ela fosse realmente
uma Constituinte. Mas vejo pouca probabilidade de
se formar um grupo realmente poderoso e consciente,
que sejam bons patriotas, para que possam fazer
uma boa Constituição. Eu olho com
certo susto a Constituinte. Uma coisa que acho muito
importante é definir o papel das Forças
Armadas. Não podem tutelar o regime democrático.
Mas é difícil conseguir isso.
O senhor
disse há pouco que, se votasse, votaria no
Partido Socialista. O senhor acredita que exista
socialismo real em algum país do mundo?
Drummond
- O regime socialista a meu ver não
é praticado nos países que se dizem
socialistas. A não ser talvez na Escandinávia,
onde há, realmente, um começo.
O senhor
já foi convidado para visitar Cuba, como
outros intelectuais que lá estiveram e até
escreveram livros a respeito?
Drummond
- Nunca fui, não. Aliás,
uma vez eu estava posto em sossego, cerca de meia-noite,
e me telefonou o Chico Buarque de Holanda, pessoa
que admiro muito, mas com quem não tenho
nem contato. Gosto da música dele. Telefonou
e disse: "Preciso conversar com você".
Eu disse: "A esta hora da noite? Meu Deus,
aconteceu um drama, para o Chico me procurar!"
Mas disse. "Pois não, venha". Apareceu
em companhia de um cidadão moreno, magro.
Era já meia-noite e meia. O cidadão
falou meio enrolado, era o embaixador da Nicarágua
no Brasil, que tinha lido uma crônica minha
no jornal e achava que eu estava mal informado sobre
o país dele. Ah, tenha paciência! Eu
tenho noção do que escrevo, compreendeu?
Não sou partidário dos Estados Unidos,
longe disso, acho a agressão à Nicarágua
uma coisa estúpida. Mas não se pode
negar que a Nicarágua é uma ditadura.
Eles fecharam o La Prensa, onde tenho amigo, o poeta
Pablo, Antonio Cuadra. E então falei para
o Chico: "Tenha paciência"!
E o embaixador?
Ouviu e foi embora?
Drummond
- Era delicado, como todo embaixador.
O senhor
tem um poema, Favelário Nacional, em que
diz que é difícil ser irmão
das pessoas, ser solidário.
Drummond
- Eu acho muito difícil. Fomos criados
para sermos irmãos de nossos irmãos,
e mesmo assim olhe lá. Somos irmãos
de nossos irmãos e de nossos amigos - os
demais são sócios, indiferentes ou
inimigos, competidores. Se eu quiser ser irmão
de um favelado eu acho que ele me cospe na cara.
O senhor
tem escrito muito hoje em dia?
Drummond
- Pouco, muito pouco.
O que é
pouco para o senhor?
Drummond
- No mês passado eu fiz 20 poemas
curtos focalizando aspectos da vida de Manuel Bandeira.
Tem algum
livro inédito de poesia?
Drummond
- Tenho matéria para um livro, mas
não pretendi publicar até agora. Quer
ver? (Busca uma pasta com poemas cuidadosamente
organizados, tira um, mostra.) Este aqui, Quadros
em Exposição, eu fiz inspirado em
grandes pinturas clássicas. Não vou
à Europa, fiz olhando as cópias.
E seus poemas
eróticos?
Drummond
- Passaram da moda, não pretendo
publicar.
O senhor
lê a poesia que se faz hoje no Brasil?
Drummond
- Eu acho muito ruim.
E o movimento
concretista?
Drummond
- Uma bobagem.
A poesia
práxis também?
Drummond
- É. Outra bobagem.
O senhor
não vê valor nesses movimentos?
Drummond
- O que há hoje no Brasil é
uma diluição da poesia brasileira
em termos até chatíssimos, porque
todo mundo agora faz poesia, e ninguém faz
poesia. É uma coisa incrível. O mal
disto vem do Modernismo. O Modernismo rompeu, inovou,
criou, deu novas formulações estéticas,
mas ao mesmo tempo permitiu que todo mundo que não
sabe escrever escrevesse. O pessoal não tem
a menor noção de ritmo, de criação
verbal e faz versos. Todos os dias agora aparecem
antologias, e então aparecem 200 poetas,
geralmente mulheres. E impressionante o número
de mulheres que pensam que fazem versos.
E a poesia
da Bruna Lombardi?
Drummond
- Ainda agora estou gostando muito do trabalho
dela na televisão.
Bem, acho
que estamos no fim. O senhor quer dizer mais alguma
coisa?
Drummond
- Eu não. Não quero dizer
nada. Você me arrancou uma porção
de coisas que eu não devia dizer. Por minha
iniciativa, eu não digo nada a ninguém,
sabe?
"Meu Deus,
por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco."
(Poemas de Sete Faces, 1930)