| Porto
Molhado, 22 de agosto-mês-do-desgosto de 1977
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Emediato, amigo:
“Estou um tanto perturbado
– recém cheguei do cinema, fui ver
O Inquilino, do Polanski. Acho que poucas vezes,
ou nunca, vi nada tão patológico:
é assustador, sobretudo porque convincente
– um processo de enlouquecimento visto de
dentro, num crescendo que chega até o gran-guignol
do final – brrrrr! Já estou elaborando
em cima da minha perturbação e tentando
entender – saí do cinema absolutamente
tonto, trêmulo, me enfiei no boteco da frente
e tomei um balde de café. Agora passou pouco.
É que o filme, do meu enfoque, é justamente
sobre a paranóia no relacionamento entre
as pessoas (no caso específico do filme,
agravada por uma série de outros fatores
– a solidão e o homossexualismo contido
da personagem). Essa paranóia, essa desconfiança,
esse medo do outro tem sido meu leit-motiv nos últimos
tempos. Vem de fora pra dentro – porque a
cidade grande, o trabalho no jornal e o ninho de
cobras da, aarrgh!, vida-literária só
fazem aumentar isso; mas vem também –
e isso é que me assusta – de dentro
pra fora, de núcleos doentes, escuros e tristes
existentes dentro de mim, e já vividos numa
dimensão de terror semelhante à do
Inquilino principalmentn sob efeito de ácido.
E (até quando?) sob vigilância constante,
sob controle, em tratamento (eficaz?).
Mas tudo isso é pra prefaciar uma atitude
que tomei na semana passada, e que me sinto –
ia escrever obrigado ou no dever, mas não
é nada disso: bem, quero te contar. Um amigo
meu mandou-me o recorte de uma carta dele enviada
e publicada em O Pasquim da semana passada, em que
ele criticava a entrevista conosco. A resposta era
uma grossura incrível (...).
O sangue me ferveu: fiquei PUTO. Somei isso a um
telefonema ambíguo (?) do Jeferson recebido
um dia antes (...) e resolvi agir, por minha conta,
sem consultar absolutamente ninguém.
Escrevi duas cartas: uma à seção
de cartas daquele jornaleco careta e reacionário,
de três páginas, muito agressiva, dizendo
absolutamente tudo o que penso sobre eles e sobre
os cortes feitos na entrevista (estranho que praticamente
não cortaram nada das palavras de vocês,
só das minhas). Outra ao Jeferson, dizendo
que absolutamente não permito que a Codecri
ou seja quem for se dê tais direitos sobre
um texto meu. Quero saber da possibilidade de retirar
meus contos de uma possível terceira edição.
Não sei que providências eles tomarão
– talvez eu tenha comprado uma briga muito
feia e preciso até de advogado. Não
importa. Assumo plenamente o que fiz. Estou de saco
absolutamente cheio da Codecri, do Pasquim, das
intrigas do Jeferson e das atitudes doentias do
nosso amigo Julio Cesar. Eu tenho uma psicologia
muito frágil – simplesmente não
quero me envolver em estorinhas sujas como essa.
É doloroso ver o carreirismo, a falta de
escrúpulos e o mau-caratismo de gente que
eu, ingênuamente, supunha “amigos”.
Estou ferido e cansado. (...) e escrevo a você
explicando diretamente o que se passa, para que
não venha um desses jefersons ou julios da
vida armarem tramas escuras entre a gente. Eu te
quero bem e gostaria de preservar o relacionamento
da gente – que me parece sadio. É só
nisso que estou interessado: um pouco de saúde,
um pouco de honestidade, um pouco de decência.
(...)
No mais, arrasto minha solidão por dentro
do cinza deste agosto interminável em direção
não sem bem a quê, quem sabe? Ou outubro,
ou novembro. Ou um Godot qualquer que não
vem nunca. Sei lá.
Estou enviando os recortes das entrevistas. Mais
este conto para a Inéditos. É uma
barra, mas é o que eu sou. Ou pelo menos
um dos meus lados. Talvez o mais limpo. Do meu ponto
de vista.
Dê notícia, quando puder. Um abraço
para Sylvia. Outro procê. Do
Caio
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