Emediato, irmão:
Nêgo, foi muito bom receber a tua carta. MUITO
BOM MESMO. Eu estava cheio de suspeitas, pintaram
muitas estórias paranóicas na minha
cabeça – com base no real, infelizmente
(se fosse demência seria mais fácil).
As estorinhas around as Histórias de um Novo
Tempo foram tantas & tantas, e tão exaustivas,
e tão idiotas que – enfim, deixa pra
lá. Bastidores literários: aaaaarrrrrrrg!
Mon coéur vomite.
(...) Vou hoje à tarde pra Caxias do Sul,
lançamento do Ovo (tão antigo) &
papos (que cansaço) com estudantes.Eu todo
doído. Minha vida tá toda errada.
Bodes em vários níveis, às
vezes me sinto bombardeado de – sei lá
o quê: em casa, no trabalho, afetivamente,
financeiramente. Poucas vezes a barra esteve tão
pesada. No país, é isso que você
vê. Cada vez pior. Ai, Emediato, pra onde
a gente tá indo? Prenderam gente, a paranóia
tá à solta por aqui. Y otras –
muchas – cositas más. Em compensação,
tenho trabalhado – escrito – muito.
Talvez por fuga? Não sei, acho que não
– porque a realidade dos meus textos é
tão ou mais (?) terrível do que o
real dia-a-dia.
Sobre você vir em julho: MARAVILHOSO. Dificilmente
poderei ir a Buenos Aires – só tenho
direito a férias em setembro. Mas mesmo que
você fique cinco minutos aqui, seria ótimo.
Se você quiser, pode ficar lá em casa
(mudei praquela casinha, anote lá: rua Chile,
661) com ou sem Sylvia. Eu espero que o relacionamento
de vocês se resolva de maneira que te doer
menos. Não quero me atrever a dizer coisas
sobre – mas, olha, evite arrastar um relacionamento
moribundo. Sempre é melhor reagir, partir
pra outro do que arrastar, arrastar.
Mangarielo (N. da R. – Fernando Mangarielo,
editor da Alfa Ômega) esteve aqui –
também gosto muito dele, descontado certo
speed (típico de SP). Lá (e aqui de
novo) ele já tinha feito altos elogios a
você: sobre a sua elegância, a sua finura,
a sua correção – mais ou menos
o que disse a você de mim. O que me faz supor
– quem sabe? – que essas sejam características
do signo de Virgem. Meu livro – Pedras de
Calcutá – deve sair em outubro.
Li a crítica do Pólvora (N. da R.
– Hélio Pólvora, crítico
da revista Veja) sobre o Jordão (N. da R.
–Não Passarás o Jordão,
livro de estréia de Luiz Fernando Emediato,
pela editora Alfa Ômega, de Fernando Mangarielo,
em 1977). Fiquei contente, como divulgação
é ótimo (como crítica, bem...),
O prêmio da Status eu já sabia, pelo
Julio – PARABÉNS. Tudo isso é
muito bom, além de você merecer, é
um puta impulso pra te lançar.
Nêgo, eu não tô nada bem. Queria
te escrever com mais carinho, mais entusiasmo, com
mais vida. Mas olha, não tá saindo.
Queria muito que a gente se visse em julho.
Acordei com uma frase do Poema Sujo me massacrando
a cabeça:
“como uma coisa suja (uma culpa) dentro de
uma pessoa” mas não consigo relacioná-la
com nada objetivo. Talvez seja uma coisa que eu
deva evitar: culpas, culpas, culpas, culpas.
Emediato, gosto muito de você.
Um abraço do seu irmão,
Caio