| Porto,
28 de dezembro de 1976
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Emediato, companheiro,
Recebi tua carta – gracias.
Olha, tô em dívida com você e
com uma porção de gente, já
faz tempo. Acontece que mudei – saí
da casa de meus pais (enfim!) para um apartamento
– e, além de toda a agitação
natural, perdi minha caderneta de endereços.
Com essa, perdi o contato com o Julio César
– e a respeito de nossa antologia só
sei o que você me diz agora.
Olha, a Inéditos tá excelente. (...)
Gracias pelo anúncio da Paralelo. A gente
precisa. Talvez você já saiba, mas,
se não sabe, talvez pudesse publicar uma
notinha na próxima Inéditos: foi instituída
a censura prévia a partir do número
3 de Paralelo. Não se sabe por quê.
Simplesmente chamaram o editor - Delmar –
no Dops e comunicaram. Mas a gente continua. Forças.
Eu acho que estou bem. A saída de casa foi
ótima. (...) Eu precisava desmamar. (...)
Moro com um companheiro, um amigo velho, de mais
de 10 anos. (...) Andei amando loucamente, como
há muito tempo não acontecia. De repente
a coisa começou a desacontecer. Bebi, chorei,
ouvi Maria Bethânia, fumei demais, tive insônia
e excesso de sono, falta de apetite e apetite em
excesso, vaguei pelas madrugadas, escrevi poemas
(juro). Agora está passando: um band-aid
no coração, um sorriso nos lábios
– e tudo bem. Ou: que se há de fazer.
Seria muito bom se o lançamento de nossa
antologia fosse logo e a gente pudesse se encontrar
no Rio. Acho que a gente teria muito pra conversar.
Sinto uma ligação telepática
(?) com você.
Não se angustie demais com trabalhos e esses
baratos: deixe rolar. As previsões pra 77
são negras, fica difícil ter ilusões
ou esperar, simples e candidamente que as coisas
melhorem. Objetivamente, só vão piorar.
Subjetivamente, a barra é de cada um. Segura
daqui, segura dali – meu caro amigo. Estou
te falando lugares comuns, não é?
Me deu um branco agora – o cão começou
a uivar no Pink Floyd.
Releio Alice no País das Maravilhas e descubro
que sou um menino que caiu na toca do coelho e ainda
não conseguiu entender tudo (jamais saberei).
A gente olha em volta, o olho arregala, o coração
bate. O ano tá terminando, meu amigo. Menos
um. Os votos de feliz-ano-novo foram proibidos.
Uma das coisas boas desse ano que passou foi conhecer
você – pelo menos por carta. Fique contente,
dentro do possível, fique contente. Curta
o seu filho e o seu amor.
Até outra, um abraço amigo, muito
grande, do seu
Caio
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