| Porto,
03 de junho de 1976
|
|
Luiz Fernando Emediato,
Olha, vou dar uma
de Roberto Drummond – no número 1 de
Inéditos – e te escrever explicando
porque não consigo escrever uma carta.
Tenho andado muito ruim, moço. O corpo, a
saúde propriamente dita, tudo bem. O que
vai mal é a cuca. Depressões, confusões,
pirações. Então – te
escrevi duas vezes: a primeira saiu uma coisa sincera,
mas lamentativa demais, um saco. A segunda saiu
“madura e controlada”, mas extremamente
falsa. Resolvi não mandar nenhuma delas,
mas esta – contando porque não mandei.
Não vale a pena falar sobre meus problemas
– são muito meus, você não
poderia me ajudar. Também não vale
a pena fingir um equilíbrio que não
tenho.
Mas queria dizer que fiquei contente que você
tivesse lembrado de mim. Recebi os exemplares de
Silêncio e estou distribuindo por aqui. Muitíssimo
obrigado, chegaram ontem, ainda não deu para
ler – mas achei da pesadísima, com
ilustrações ótimas. Eu queria
também te mandar alguma coisa das nossas
publicações daqui, mas tô dum
jeito que me afastei muito de tudo e ir até
a esquina às vezes é uma aventura.
Me dê um tempo.
Também gosto de você – conheço
alguns contos e poemas seus, me parecem ótimos,
sérios, fundos (aquele da última Ficção
é o que gosto mais). Acho que tá na
hora de você batalhar uma editora e soltar
livro.
Meus parabéns pelo nascimento de Alexandre.
Fique contente, não analise e fique contente.
A gente tem o vício (eu, pelo menos) de matar
a alegria com mil análises críticas
que geralmente não têm nada a ver.
Toque o barco sem medo. Gente como você é
sempre uma força. Muito obrigado por tudo
que você diz sobre meu trabalho.Olha, eu tô
fazendo um baita esforço pra melhorar. Quando
estiver legal e puder dar outras coisas que não
apenas queixas-e-lamentações, te escrevo
longamente. Tô a fim de chegar em Minas lá
por julho, daí a gente se vê. Um grande
abraço do teu amigo,
Caio
|
|
|
|