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Todos Nós tem 9 artigos publicados (veja a relação).
Vestidos
31-03-2008

Por Marlene Carvalho   
marlenecarvalho@bighost.com.br

Rosaura saía do escritório para almoçar quando viu o acidente: um carro desgovernado subiu na calçada e imprensou contra a parede a moça loura, vestida com uma blusa verde.  Juntou gente, mas Rosaura não teve coragem de olhar de perto. Atordoada, caminhou pelas ruas de Copacabana, debaixo do sol forte, até que parou em frente a um brechó.

Saindo da rua luminosa, a loja lhe pareceu muito escura, com cheiro de roupas velhas. A senhora que tomava conta da loja olhou-a por cima dos óculos e continuou a ler uma revista.

Uma armação de madeira exibia vestidos de passeio, de seda, algodão e linho, e algumas roupas de festa, de tecidos brilhantes, moles e escorregadios. Pilhas de roupas dobradas - malhas desbeiçadas, pulôveres estreitos, saias de lã e casacos fora de moda ficavam numa prateleira.

Rosaura encontrou um vestido que havia usado, durante um ou dois invernos, quando tinha quinze anos. Era de lã azul marinho, decote quadrado, mangas compridas, a barra da saia enfeitada com pequenas flores: um botão minúsculo fazia o miolo de cada flor. Os caules verdes e as pétalas vermelhas eram bordadas a mão. Ficou alguns minutos alisando o tecido macio, sem entender. Nenhum botão fora do lugar.

Sua mãe costumava dar roupas usadas para os pobres. Talvez o vestido tivesse ido para um asilo, um orfanato, e ali ficara esquecido. Caminhou até a senhora que tomava conta da loja e mostrou-lhe a peça:

A senhora se lembra quem trouxe esta roupa?

Sei não. Vai levar?

Não, é que este vestido foi meu, quando eu era mocinha. Esquisito, né?

A velha fechou a revista, abriu uma gaveta e se pôs a lixar as unhas em forma de garra, pintadas de roxo. 

            Rosaura voltou para o escritório andando devagar. Muito nervoso, o chefe nem lhe perguntou por que tinha demorado tanto no almoço. Ela teve vontade de contar o acidente com a moça loura e que descobrira num brechó um dos seus vestidos antigos, mas achou que o chefe não ia se interessar. Sentou-se e procurou se concentrar. As costas lhe doíam muito, era melhor evitar o computador. Ficou por ali, tentando passar despercebida até as cinco da tarde, hora de encerrar o expediente.

Em casa, abriu o armário e olhou demoradamente suas roupas. Nenhum vestido. Para trabalhar, usava calças compridas e blusas de malha, de cores pálidas. Um casaquinho ficava no escritório para protegê-la do ar condicionado. Para os fins de semana, tinha bermudas e uma coleção de camisetas.

Estava inquieta com o achado do vestido azul marinho. Quem poderia imaginar que aquela roupa fosse aparecer? Uma coincidência, é claro, mas estranha.

Tentou se lembrar dos últimos vestidos que usara. Tinha mandado fazer um para o casamento da filha, cinco anos atrás; depois que ficou fora de moda, deu-o à empregada. Lembrou-se de um vestido de linho verde que usou num passeio com um rapaz, na Barra da Tijuca. Que fim teria levado o rapaz de óculos escuros? E o vestido?

No dia seguinte, voltou á loja, comprou o vestido azul marinho. Colocou-o nas costas da cadeira do quarto, esperando fazer alguma coisa com ele um dia desses.

De vez em quando voltava ao brechó. Quase não havia clientes e a velha que lia revistas não dava sinal de reconhecê-la. Rosaura esmiuçava o estoque modesto: livros infantis castigados, números antigos de Naturama, Conhecer e Seleções, roupas com cheiro de mofo, cortinas e almofadas encardidas.

Num dia de chuva, Rosaura demorou-se na loja para matar o tempo e encontrou um vestido de fustão branco que usara na gravidez do segundo filho. Sentiu um arrepio.

Muito quieta, afastou-se e esperou a respiração voltar ao normal antes de examinar a roupa. Tinha uma gola grande e arredondada, abotoado de cima a baixo com botões grandes de madrepérola, dois bolsos chapados. Tocou de leve o tecido já muito lavado. Lembrou de si mesma na pracinha, jovem mãe barriguda, levando o menino mais velho pela mão. O vestido era largo e confortável. Usara-o também depois do parto, era bom para dar de mamar.

Em voz baixa, perguntou á velha como o vestido tinha vindo parar ali. Ela deu de ombros.

Pra que saber de onde vêm as roupas? Vai levar?

Nervosa, Rosaura pagou dez reais e levou seu vestido de gravidez. Teve vontade comentar a coincidência com alguém, mas ficou preocupada. Difícil acreditar que dois vestidos do tempo em que morava em Minas viessem parar no Rio - ainda mais no mesmo brechó. Se contasse para os filhos, iam achar que estava ficando gagá. Telefonou para uma prima mineira, mas a ligação estava tão ruim que a parenta não a ouvia e desligou. Desistiu.

No escritório, ficava silenciosa e distraída. Pensou que se o chefe lhe perguntasse o que estava acontecendo, responderia “tudo bem, só um pouco de dor de cabeça.” Mas ele também a evitava e nada perguntou.

A hora do almoço, procurava distrair-se, ver vitrines, ou demorar-se na pracinha olhando os velhos que jogavam cartas, mas acabava voltando ao brechó para procurar suas roupas, o coração batendo.

No fim do mês, Rosaura encontrou um vestidinho que tinha ganhado da madrinha, o mais bonito do tempo de menina: xadrez miúdo verde e branco, pala de fustão, saia rodada, aplicações de sianinha na barra. Assim que tocou o tecido, lembrou-se do rosto e do cheiro de seu pai. Moreno, bigode preto, um cheiro de fumo. Quando saíam, iam de mãos dadas, ela calma e obediente, a queridinha do papai.

Ela comprou imediatamente o vestido xadrez, sem mais perguntas.

No escritório, não pareciam notar o silêncio de Rosaura. O chefe passou a dar documentos para outra secretária digitar. Rosaura arrumava gavetas, mexia nos arquivos. Quando não havia mais nada para arrumar ou catalogar, pensava nos vestidos. O da primeira comunhão, de tafetá, lacinhos de rolotê, feito por sua mãe.  O pai tinha tirado muitas fotos, mas nenhuma saíra boa.

Onde andaria seu vestido de noiva? Seu pai tinha chorado muito antes de irem para a igreja. Quando a viu com roupas de grávida, disse que ela parecia uma baleia. Riram.

Ela passou a ir ao brechó diariamente e encontrou outros vestidos. O vermelho que usara no casamento de sua melhor amiga, com um chapéu muito lindo, coisa de cinema. Depois o chemisier branco que usara no enterro do pai - ele detestava preto. Estava bronzeada e bonita, o pai gostaria de vê-la de branco, óculos escuros para esconder os olhos inchados de tanto chorar.

No brechó, os vestidos continuavam aparecendo, agora a intervalos menores. O do baile de formatura do noivo (branco, de renda e tule) apareceu antes da coisa fofa de organdi cor de rosa que tinha usado aos cinco anos para tirar um retrato entre papai e mamãe. Procurou o retrato para conferir, era exatamente aquele vestido.

Em ritmo cada vez mais rápido, vieram seus vestidos de festas, de formaturas, de trabalho, de aniversários. Vestidos de verão, decotados, sem mangas, azuis, verdes, amarelos, nenhum preto. Eram tantos que ela nem os comprava mais, contentava-se em tocá-los.

Um dia encontrou no brechó uma blusa verde de malha, que lhe lembrava alguma coisa. Havia uma mancha na altura do seio. Puxou pela memória e viu num relance uma moça atropelada na calçada, imprensada contra a parede, com uma blusa igual ou muito parecida. Teve pena da moça loura, morrer assim, sem se despedir de ninguém.

Perguntou o preço da blusa. A velha deu um risinho satisfeito e respondeu:

Pode levar. É sua mesmo. Já esqueceu?

E voltou a ler Seleções.   

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